joan vergara

O Dr. House da arquitetura e do não-lugar

Um colega – chamemos-lhe Numerobis – pediu-me para o acompanhar como observador numa reunião com um casal que queria fazer uma casa. Numerobis gerava oportunidades, mas não conseguia fechar a venda dos seus projetos.

O casal tinha comprado um terreno perto da costa, naquele território entre a praia e a localidade mais próxima, onde normalmente existem bombas de gasolina, um McAuto, algumas laranjeiras e pouco mais.

Numerobis expôs a sua proposta, fundamentada, arquitetonicamente impecável. Explicou-lhe que estava baseada na consideração do seu terreno como um não-lugar.

A cara que o cliente fez quando ouviu isto foi igual à de Richard Gere em… bom, em qualquer filme de Richard Gere (ele tem sempre a mesma expressão).

Quando acabámos, o Numerobis estava contentíssimo com a sua apresentação e achava que tinha os clientes no papo.

Eu não concordava: “Nume, rapaz, para um casal que comprou um terreno com todo o entusiasmo e orgulho, não lhes podes dizer que compraram um não-lugar”. Além de outros qualificativos.

A sério, a honestidade brutal, nestes casos, normalmente não funciona. A honestidade sim, a brutal não. Não é preciso transformar-se no Dr. House.

Esta história serve para explicar como os arquitetos se comunicam, especialmente quando queremos ser valorizados (por exemplo, quando queremos vender um projeto).

Há um tempo atrás, escrevi que falamos baleiês. Pomo-nos a um nível intelectualmente superior e usamos conceitos incompreensíveis para a maioria. Mas acredito que o problema não acabe aqui.

O cliente não entende o que é um não-lugar (baleiês), mas mesmo que saibamos explicar de uma maneira compreensível, pode não ser uma boa ideia classificar a sua parcela com este nome. Pode escolher outro profissional menos “árido” que não o repreenda.

Porque comunicar de maneira efetiva requer um exercício de empatia extraordinário.

Não só pelo conteúdo ou pela língua, é uma questão de saber com quem estamos a falar, a que estímulos responde, o que procura, quão rápido digere o que dizes…

Por exemplo, como comunicamos conceitos complexos como uma proposta de projeto na era da perda de atenção?


Imagem: Fotografia © Owen Beard em Unsplash
Texto traduzido por Inês Veiga
Autor:
Arquitecto, consultor y coach. Cerebro muy amarillo. Wagneriano y fanático del rugby y el Taichí. Ayudando desde ARQcoaching a profesionales de la arquitectura a conseguir más y mejores encargos o un empleo y a gestionar su trabajo con efectividad.

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