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1

Stephen Cairns e Jane M.Jacobs, Buldings must die— a perverse view of architecture, London, The MIT Press, 2014, p.167.

2

Stephen Cairns e Jane M.Jacobs, Buldings must die- a perverse view of architecture, London, The MIT Press, 2014, p.175.

3

Ignasi de Solà-Morales, Territorios ; Pról. Saskia Sassen, Barcelona, Editora Gustavo Gili SA, 2002, p.133.

 

Ruína ou arqueologia do futuro

“Um espaço constantemente produzido pelo instante e devorado pela ação…”

Ignasi Solà-Morales, Arquitetura Liquida

 

As motivações na redescoberta da ruína não se limitam ao puro sentimento melancólico e nostálgico sobre um passado fisicamente inacessível, indiciam antes uma vontade em reintroduzir a ruína e os seus significados no pensamento arquitetónico presente e futuro. A propósito, Walter Benjamin afirmava a ruína como algo mais do que uma arquitetura do passado que se prolongava no presente, o culto pela ruína é o resultado de uma obsessão da modernidade com o passar do tempo 1, projetado para o desaparecimento das coisas ou para a revelação da sua força contra ele.

 

O fascínio pela ruína continua a encontrar, na era moderna, novas expressões e significados para artistas e arquitetos com motivações diversas e por vezes contraditórias— a perseguição da ordem, mas atração pela aparência caótica da ruína; desejo de sobrevivência, mas satisfação pela ação destrutiva comum; deslumbre pela eternidade diante uma atração inexplicável por demolições.

 

Proveniente de diferentes contextos, a ruína não surge apenas como fonte de inspiração, mas enquanto motivo despertador de novas reflexões acerca do futuro, sugerindo métodos de representação e experiências alternativas.

 

Esta perspetiva é evidente na arquitetura de Arata Isozaki, para quem as ruínas se revelaram, desde o início, uma preocupação recorrente e próxima. Inevitavelmente, os cenários de pós-guerra no Japão serviram de inspiração, não enquanto traços românticos do passado, mas como sinais do futuro da arquitetura e da cidade, segundo ele, profetizar a fé nas ruínas era equivalente a planear o futuro 2.

 

Ruína como sinónimo da arquitetura que, com o passar do tempo, se liberta da sua qualidade funcional e revela o invisível e subjetivo em arquitetura. Neste contexto, inicia-se uma viagem pelo mundo da abstração no qual a beleza de uma obra arquitetónica é eterna e não é inerente à sua utilização e função. No âmbito desta definição, a obra de Alberto Burri fixa-se na fronteira entre escultura e arquitetura­, é a arte ao serviço do espaço sem função aparente. No cenário do real, as fendas representam as ruas preexistentes ladeadas por escombros amontoados e cobertos por um manto de betão branco, a uma altura de 1,60m (linha do horizonte). Inabitada, a cidade em ruínas deu lugar a uma escultura de cerca de 80 mil m2, hoje apropriada pelos (novos) visitantes como quem percorre um labirinto da memória de Gibellina. A mensagem artística eleva a condição humana acima de qualquer tragédia e transmite às gerações, presente e futura, a capacidade de luta e esperança na cidade que afinal não desapareceu. A destruição do lugar passou a ser a construção do projeto artístico, o autor fala em ‘arqueologia do futuro’.

 

Precisamente a designação de ruína não adquire apenas o sentido literal do desmoronamento ou colapso de um edifício. A palavra ruína anuncia uma ‘revolução’ na compreensão do tempo presente, passado e futuro, que se afasta da conceção genérica.

 

O presente conquista um duplo sentido e deixa de ser o último epicentro das nossas perceções. Uma ruína revela-se muito mais do que uma rememoração do passado, ela constrói uma distância benéfica na apreciação das necessidades e existências contemporâneas, até porque é cada vez mais difícil ter uma perceção do mundo presente que não seja determinada por ele mesmo.

 

“Um espaço constantemente produzido pelo instante e devorado pela ação…” 3

Ignasi Solà-Morales, Arquitetura Liquida

Figura 1 Re-Ruined Hiroshima, Arata Isozaki, Japão, 1968.

Figura 2 Il Grande Creto, Alberto Burri, Gibellina velha, 1989.

Figura 3 Il Grande Creto, Alberto Burri, Gibellina velha, 1989.

 

 

 

Notas de página
1

Stephen Cairns e Jane M.Jacobs, Buldings must die— a perverse view of architecture, London, The MIT Press, 2014, p.167.

2

Stephen Cairns e Jane M.Jacobs, Buldings must die- a perverse view of architecture, London, The MIT Press, 2014, p.175.

3

Ignasi de Solà-Morales, Territorios ; Pról. Saskia Sassen, Barcelona, Editora Gustavo Gili SA, 2002, p.133.

 

Autor:
(Figueira da Foz, 1996) Estudante na Faculdade de Arquitetura do Porto (desde 2014), com um percurso escolar dividido entre a arte, ciência e literatura, a arquitetura surge como a síntese dos três mundos. A palavra manifesta-se enquanto processo criativo, tal como o desenho em Álvaro Siza.

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