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Pós Distância Arquitectónica: uma breve reflexão sobre a arquitectura contemporânea

os espacialistas, salto à janela, 2020

Quando termos como “confinamento”, “isolamento”, “distanciamento social” fazem parte da história da arquitectura contemporânea, a questão que se coloca é a de saber se são conceptualmente eficazes. Já sabemos que assentam no discurso científico e sociopolítico mais premente, mas será importante perceber como se manifesta no discurso da arquitectura. Que sejam utilizados como conceitos históricos, mesmo que possuam alguma legitimidade no tempo presente, não nos devia impedir uma certa actualidade dos conteúdos e das definições, precisamente, para se estabelecer o que esses termos significam agora para a arquitectura na história do presente e a partir do presente para o futuro. Não se trata de demonizar os conceitos, fazê-los expelir negro, ou defini-los como sinónimo de grotesco, mas integrar a nossa incapacidade de nos relacionarmos efectivamente com eles e com as suas potencialidades.

 

Se compreendemos o presente como o que é contemporâneo, é evidente que devemos reflectir ou tornar implícitas as análises aos termos através das nossas obras. Essa poderá ser a única observação, que permita verificar os sintomas do contexto, do ponto de vista crítico, à sustentação da arquitectura. Parece ser importante assumir um afastamento entre uma ideia de progresso como de reação ao passado e mediar, a partir dos elementos oriundos de cada local, o impacte da pandemia na civilização universal e, por inerência da disciplina, na arquitectura e na cidade. Ou o mais evidente é que se passe à cegueira em favor dos (pré-)juízos estético-funcionais revelados, essa monoarquitectura da monocidade, que se move no modelo especulado, mas não espetacular.

 

O contexto deste assunto é vasto e premente, a par estão as dominantes questões decorrentes do capitalismo, do patriarcado e das alterações climáticas. Mas a arquitectura é o lugar da fala a partir do desenho e da edificação de sintomas que aparentam um certo desgaste de reflexão.

 

Quando olhamos para os que nos organizam as referências criamos coletâneas de arquitectos detectives. Hoje reconhecem-se poucos os que procuram, são mais os que querem ser encontrados. Trata-se, em suma, de uma ruptura com a necessidade, ou com a esfera onde temporalmente nos encontramos. Não sugiro que a arquitectura se volte para o passado, mas que possa assumir uma atitude mais inovadora, aceitando a coexistência de neos e de pós, sobreposições, imitações, formalismos, mas observando e criando descontinuidades e possibilidades. Agimos como se nos faltasse o espaço para a liberdade, como se o mundo já há muito nos fosse conhecido, ou ignoramos o que se coaduna com a perspectiva actual.

 

É bastante particular que muitas vezes, em teoria, o quadro do mundo político, social e filosófico caracteriza fragmentações, paródias, colagens, caos, vários efémeros, pós verdades em bloco, e nisto a arquitectura despreza o seu valor. Não compreende a sua relação com a sociedade, demite-se do seu papel eclético. Não tem de ser oposicionista nem de se prender com a alegada falta de originalidade.

 

Antes da pandemia vivíamos numa espécie de entropia organizadora. Construíamos de modo acelerado e cada vez de forma mais compacta. Quase dois anos depois de uma pandemia poderíamos reflectir sobre esse tempo em que nos faltou a sanidade, sobre a falta de urbanidade, sobre a cidade-produto, sobre o tanto que estava errado no cenário da mobilidade, como nos interesses públicos, como na falta de noção de bem comum. Durante dois anos houve uma espécie de miragem que o tempo da arquitectura regressasse ao kronos, mas afinal nunca saiu do kairos. Regressámos como peregrinos a esta Meca que define que para sermos bons fiéis temos de produzir mais, rentabilizar mais, urbanizar mais. Nesta perspectiva extremada, defendemos que a proposta para nos colocarem a viver em Marte de Elon Musk, o homem eleito figura do ano 2021 pela revista TIME, é a resposta mais eficaz aos conceitos referidos no início deste texto. É este entendimento que os torna pouco úteis, certamente. Ora talvez a questão seja perceber se os conceitos da contemporaneidade são então os que nos mantém no rumo da banalidade do fazer, começando pelas tipologias residenciais predadoras do território e do ambiente.

 

Debates que não acontecem não gerem sequer dificuldade e a rapidez da história, da tecnologia, do consumo que nos caracteriza a sociedade e da globalização vai atropelar a nossa abstenção desta discussão.

 

Efectivamente, ou se entende que os dogmas herdados da modernidade da arquitectura já foram derrubados, ou o pragmatismo que falta à filosofia contemporânea vai desenhar o declínio do novo mundo.

yves klein, leap into the void, 1960

Autor:
Fundadora do atelier Andreia Garcia Architectural Affairs, tem-se especializado na disseminação da arquitetura através da prática curatorial. Doutorada pela FAUL, recebeu o Prémio Professor Manuel Tainha. É cofundadora da Galeria de Arquitectura.

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