
Andar superior do Mercado de Olavide de Francisco Javier Ferrero. Fonte: Nuevos mercados madrileños, Arquitectura. Revista Oficial do Colegio Oficial de Arquitectos de Madrid, nº 4, 1935.
No âmbito das recentes Jornadas Internacionais do INCUNA em Gijón, comentávamos numa discussão entre colegas as injustiças sofridas pelo nosso património urbano, cujo desaparecimento sob a ação da picareta privou as futuras gerações de viver em primeira pessoa a experiência de certas arquiteturas que apenas podemos estudar através de documentação gráfica. Sem tirar mérito à importância do excelente trabalho de muitos fotógrafos ao longo do século XX como facilitadores de informação visual valiosa, sem a qual teríamos perdido uma importante dimensão da investigação arquitetónica1, a privação da experiência do espaço leva à falta de dados experimentais valiosíssimos na sua interpretação2.
Esta perda da quarta dimensão do nosso património arquitetónico, com acesso exclusivo a documentação fotográfica ou planimétrica, também leva a uma questão muito mais importante, como a destruição de um legado espacial irrepetível. Estas ausências arquitetónicas às vezes tornam-se numa memória de rastos e cicatrizes no tecido urbano, por vezes sob a forma de vazios negativos, outras com a substituição das preexistências por anódinas construções em função do “gosto” atual. Ausências que se convertem em estimulantes incógnitas para aqueles que tiveram o prazer de as desfrutar ou em tristes recordações para os que sobreviveram à sua perda.
Entre os muitos exemplos do vazio-rasto e do preenchimento que o substitui que mencionei antes, destaco dois casos que me interessam em particular: o mercado de Olavide em Madrid e a Estación del Vasco, em Oviedo. O mercado3 projetado por Francisco Javier Ferrero em 1934 era um exemplo singular do seu tipo, concebido num estilo racionalista com uma característica forma poligonal que a sua demolição em 1974 não apagou, visto que se mudou para a conformação do espaço urbano atual. O segundo caso era um interessante exemplo de estação de comboio de estilo art nouveau, que conservava os seus espaços característicos, os seus painéis publicitários de cerâmica esmaltada colorida e as singulares passagens elevadas que permitiam salvaguardar a passagem entre as diferentes plataformas4. Uma amostra singular da arquitetura ferroviária do início do século XX que desapareceu entre escombros em 1989, dando lugar a um longo período de terreno baldio que recentemente acolheu com agrado a construção de blocos de habitações plurifamiliares. Salvando as distâncias, vale a pena recordar a frase de Carlos V que tanto inspira os que nos especializamos em conservação do património: “Construístes aqui o que vocês ou qualquer outro poderia ter construído em qualquer lugar: com isto, destruístes algo que era único no mundo”.
Felizmente, os últimos anos de reflexão e autocrítica abrem um espaço para a aprendizagem dos erros do passado, para a conservação e integração do nosso património arquitetónico nos tecidos e dinâmicas da cidade atual. No futuro, não haverá lamentos por mais perdas devidas à ignorância ou a uma mal-entendida evolução urbana, uma vez que a preservação e reutilização do nosso património urbano contribui para a consecução de uma cidade mais compacta, que fomente a implementação de usos mistos para uma maior sustentabilidade e eficiência e que, em suma, preserve a memória das nossas cidades e o pleno sentido destes lugares como sedimentação do tempo no espaço físico.
Texto traduzido por Inês Veiga