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As tuas emoções comuns: lugares públicos

Rayuela. Paris 1960. Geralrd Bloncourt

“Assim, tinham começado a andar por uma Paris fabulosa, deixando-se levar pelos signos da noite, adotando itinerários sugeridos por uma frase de chochard, por uma água-furtada iluminada no fundo de uma rua escura, detendo-se nas pracinhas muito íntimas para se beijarem nos bancos, ou para olharem o jogo da semana, os rituais infantis da pedrinha e do salto ao pé-coxinho para entrar no Céu.”»

Julio Cortazar, Rayuela (O Jogo do Mundo). Cátedra Letras Hispánicas, 2016.

A praça é o lugar das tuas emoções comuns. A praça, a rua, o parque, etc.… nestes lugares públicos ocorrem inúmeras atividades e acontecimentos e em todos eles existem, entre outros, dois elementos comuns: as pessoas e as emoções. As emoções estão, embora não te apercebas, em tudo o que fazes. Sempre que há movimento, há uma emoção que o motiva.

Mas o que eu quero salientar são essas emoções que partilhas, as emoções que sentes em conjunto e com as outras pessoas. Emoções partilhadas que te permitem sentir que fazes parte de um grupo, que te dão a sensação de pertencer a algo maior que tu ou que a tua família, são emoções que partilhas com a sociedade. São as tuas emoções comuns.

Estas emoções comuns têm por excelência um contexto, os lugares públicos. A expressão destas emoções exprime-se em manifestações, celebrações, jogos ou reuniões. Pensa nos acontecimentos do 25 M na Puerta del Sol em Madrid ou nas festas da tua aldeia ou cidade. Em todos os casos, o cenário é um lugar público e as emoções que ali se expressam são emoções comuns a todo o grupo. A indignação por uma determinada situação política, a raiva por um acontecimento violento, a alegria de uma dança num concerto ou o riso de umas crianças a brincar. Todas são emoções que partilhamos e que nos fazem sentir parte de um grupo social.

Mas estes afetos comuns não se limitam a acontecimentos singulares ou quotidianos partilhados. A imagem afetiva que crias do teu bairro, aldeia ou cidade é uma imagem afetiva partilhada. Todos os vizinhos do teu bairro veem as mesmas ruas, praças e parques. Tiveram, ou terão, experiências nelas e, portanto, o afeto que tenham pelo seu bairro, aldeia ou cidade será semelhante ao teu. Partilham emoções e imagens afetivas. A ligação com essas pessoas, mesmo que não as conheças, é especial. Nunca te aconteceu que, ao falar com um desconhecido, fosse por motivos profissionais ou pessoais, no decorrer da conversa descobres que cresceram no mesmo bairro ou cidade. A relação muda automaticamente, nesse mesmo instante produz-se uma ligação emocional.  O vínculo que têm graças às experiências vividas num mesmo lugar une-os de maneira afetiva, pertencem ao mesmo grupo.

Os lugares públicos são fonte de emoções comuns e unem-nos como sociedade. Estes lugares, além de usos ou significados, são especiais para a coesão social; e o teu sentimento de pertença, para a tua identidade.

Qual é o teu lugar comum?


Bibliografia:
Cortazar, Julio, Rayuela. Cátedra de letras hispánicas, 2016.
Norberg-Shulz, Christian, Existencia, Espacio y Arquitectura. Editorial Blume, 1975.
Pardo, José Luís, Las Formas de la Exterioridad, Pre-Textos, 1992.
UPAD Psicología e Coaching: «Identidad grupal: la necesidad de sentirse parte de algo». Psicología y Mente.
Adrián Triglia: «Síndorme del Nido Vacío: cuando la soledad se apodera del hogar». Psicología y Mente.
Paisaje Transversal, «Dimensiones de la privatización del espacio público» disponível no Blog Fundación Arquia (Setembro 2016).
Elisa Carrasquilla ,«A jugar la calle, a soñar la calle…» disponível no Blog Fundación Arquia (Agosto 2018).

Texto traduzido por Inês Veiga.

Autor:
(Madrid 1980) Doctorando en el departamento de Proyectos Arquitectónicos en la ETSAM, Master en Proyectos Arquitectónicos Avanzados por la ETSAM, 2013, Arquitecto por la Universidad Alfonso X El Sabio, 2006. Socio fundador de Estudio Perpendicular.

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