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joan vergara

Ode aos arquitetos com cérebros amarelos

Nós, arquitetos, temos uma característica escassa entre a população, e quando alguma coisa não abunda, normalmente converte-se em valioso. O nosso cérebro amarelo pode oferecer muito valor à sociedade. Procuremos a maneira de o fazer.

Há umas semanas atrás, numa dinâmica de grupo de aproximadamente 15 arquitetos, fizemos um teste HBDI de Ned Herrmann que identifica a área de dominância de uma pessoa.

De uma maneira geral, este pesquisador propunha quatro tipos de funcionamento cerebral: azul (lógico), verde (organizador), vermelho (interpessoal) ou amarelo (inovador). Dê uma vista de olhos aqui. Obviamente que é uma simplificação e está claro que ninguém funciona de maneira unívoca. Mas normalmente há um predominante.

O resultado do teste foi que quase todos os arquitetos tinham cérebros predominantemente amarelos.

O amarelo é o cérebro visionário, criativo, holístico, conceitual, integrador… Aquele que intui e imagina. Aquele que aborda respostas que destroem as perguntas. O seu grande objetivo e recompensa é a inovação.

E o mais curioso disto tudo é que é o menos abundante na sociedade: só mais ou menos 6% das pessoas é que o têm. Então qual é o motivo desta percentagem tão anormalmente alta num grupo de arquitetos? Não, não é uma casualidade.

Pelos vistos estamos muito influenciados pela nossa formação, ou talvez procuramos massivamente esta formação precisamente por ser amarelos. É igual. A questão é que temos essa qualidade escassa na sociedade, e o escasso normalmente é algo valioso.

Vivemos tempos complicados, nos quais as pessoas parecem não entender o valor que lhes podemos oferecer. Passamos a vida a competir da pior maneira, à base de descidas nos nossos honorários e de nos tornarmos em commodities.

Ora bem, aqui temos algo para oferecer à sociedade: o nosso cérebro amarelo (entre outras coisas).

Mas atenção, esta nossa criatividade não serve só para fazer casas que não se pareçam à do terceiro porquinho. Também serve para imaginar, para resolver problemas e integrar além do design arquitetónico.

O Arquitectus Vulgaris pode ser muito útil em qualquer equipa de trabalho, visto que possivelmente oferecerá uma diversidade, e a diferença proporciona equilíbrio e força. Temos justamente o que os robots não têm (por agora), o que, em muitas áreas do mundo profissional, se procura.

Faz-nos falta explorá-lo. Para isso, precisamos ser conscientes de meia dúzia de coisas.

Primeiro, fujamos da egolatria. Já sei que não podemos generalizar, digo isto para que simplesmente tentemos ser mais empáticos. Às vezes temos ego no próprio ego, sobretudo quando ser egocêntrico é fixe e aumenta ainda mais esse ego (uma espécie de rasgo de dandismo arquitetónico, sei lá).

Também não é preciso disfarçar-nos de nós próprios para parecê-lo ainda mais, como diria Bergamín. Mostrar a nossa natureza e dispor a mesma ao serviço dos outros já é suficiente. Conectar. Temos muito boas qualidades, mas estas nada são se não servem para as necessidades de alguém.

Um famoso koan zen perguntava: Que som é o da mão que aplaude? Nenhum, precisamos aplaudir com outras pessoas para fazer barulho. Reduzir o gap entre a arquitetura e a sociedade.

Há muitas maneiras de o fazer, e uma que normalmente desprezamos é a que parte de espaços impróprios da arquitetura.

Os arquitetos são capazes de realizar diferentes tipos de trabalhos criativos que exigem inovação e estratégia. Quantos arquitetos valorizam a sociedade desde atividades não arquitetónicas?

Usemos isto para oferecer valor, para oferecer o que aprendemos na nossa dura formação e não apenas os conhecimentos, usemos também habilidades e, claro, usemos o nosso cérebro amarelo.

Só deixei uma ponta solta. Se o seu cérebro não é desta cor, esta mensagem continua a ser para si também. A sua formação como arquiteto capacita-o igualmente para o anteriormente mencionado. Não acredita?

Todo este nosso talento não pode estar amontoado num esterquilínio. Tal como nos contava Manuel Saga aqui, a carreira de arquitetura forja sobreviventes. Vamos prová-lo.


Imagem: © Carson Arias em Unsplash

Texto traduzido por Inês Veiga
Autor:
Arquitecto, consultor y coach. Cerebro muy amarillo. Wagneriano y fanático del rugby y el Taichí. Ayudando desde ARQcoaching a profesionales de la arquitectura a conseguir más y mejores encargos o un empleo y a gestionar su trabajo con efectividad.

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