Para que serve um professor de arquitetura?

Josef Albers, aula de desenho em Black Mountain College, 1939-1940, imagem de BMC archive.

A verdade é que a pergunta por si só já é ofensiva. “Para muito”, responderão sem hesitar milhares de professores que doutrinam a sua disciplina nas numerosas aulas das nossas universidades. No entanto, desenvolver a resposta além destas duas palavras significaria um esforço ao qual não é fácil enfrentar-se. Na verdade, pode até haver um sinal de revolta face à origem utilitarista da questão. “Então como é que se chegaria a ser arquiteto?”.

A maneira como se produz a aprendizagem da arquitetura é um tema controvertido. Por acaso os próprios sistemas de avaliação da maioria das disciplinas, o mero ato de fazer exames e o próprio projeto de fim de curso (ou de licenciatura), são métodos válidos nos dias de hoje como forma de comprovar essa aprendizagem?… Não são poucos os profissionais que se dedicam ao ensino de arquitetura que, devido à evidente mudança do sistema educativo no qual nos encontramos imersos, se questionam se os sistemas de provas ao que se submetem os alunos são realmente os adequados para comprovar o seu nível de conhecimento.

De alguma maneira, em algum momento, identificamos o facto de passar nos exames ou realizar um projeto de fim de curso com a demonstração dos conhecimentos adquiridos ao longo de uma formação oficial. E, no entanto, não há nada mais distante que esta associação, e menos ainda na área especifica da arquitetura. Talvez seja por isso que, diariamente, todos os docentes se enfrentem à tentação de esquecer que o objetivo primordial do seu trabalho é o de conseguir uma aprendizagem de qualidade e não só uma titulação. De facto, se um exame ou um projeto não são por si só uma forma de aprendizagem, que motivo há para os pôr em dúvida?

Atualmente, o “curriculum oculto” no qual se desenvolvem os estudantes é o que realmente condiciona o seu futuro profissional. Por isso, talvez estejamos obrigados a pensar com eles se existem melhores formas de aprender e de estudar que as convencionais. Assim, se os sistemas aos que submetemos a avaliação aos estudantes não estão condicionados à aquisição de um conhecimento que não seja verdadeiramente profundo, deveriam ser postos em causa. Hoje, mais do que nunca, parece claro que se deve trabalhar nesse sentido, pois é nesse sentido que se devem desenvolver as tarefas às quais o arquiteto se vê obrigado a colaborar. Exercitar o pensamento critico, os dotes para comunicar ideias, independentemente dos meios, a resolução de problemas que requerem pontos de vista criativos e o próprio sistema de autoaprendizagem, são todas elas tarefas que exigem novos métodos de docência. Fomentar a aprendizagem interativa, a aprendizagem experiencial, pode conduzir a essa aprofundação da mesma maneira que exercitar a prática de fazer projetos como um substrato formativo elementário.

Na realidade, hoje, o deslocamento progressivo das horas dedicadas à projeção nas escolas, com a desculpa da sua falta de utilidade na vida real, é prejudicar os estudantes, pois significa privá-los de uma fonte primordial para o pensamento profundo da sua disciplina. O projetar como método de aprendizagem não só ajuda a desenvolver essa habilidade como também a exercitar uma forma de resolução de problemas especifica, e isto está no foco da inevitável mudança educativa na que vivemos. Para alguns professores, esta mudança virá claramente propiciada pelos mesmos estudantes e pelo modo de como nos chega a informação. Noutras palavras, ninguém forçará esta mudança, ninguém enviará uma ordem oficial e, no entanto, já está tão presente que é fundamental que, em breve, cada escola deixe de se contemplar como uma mera unidade administrativa de emissão de diplomas, para transformarem-se elas próprias em projetos educacionais profundos.


Texto traduzido por Inês Veiga
Autor:
Arquitecto y docente; hace convivir la divulgación y enseñanza de la arquitectura, el trabajo en su oficina y el blog 'Múltiples estrategias de arquitectura'.

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