Somos muitos, sim!

Só em Espanha existem 47.098 arquitetos (contabilizados). A estes devemos somar todos aqueles que se formaram na nossa terra e agora exploram outras desconhecidas. Calculando em números redondos, podemos concluir que somos mais de 50.000 arquitetos espanhóis. Este número, visto de uma perspetiva positiva e não alarmista, pode ter leituras interessantes e quase revolucionárias.

Quando uma profissão alcança tal cifra, deve ser consciente de duas coisas: que tem que estar muito bem organizada e que as decisões sobre a profissão recaem sobre si. A minha pergunta é: os arquitetos em Espanha sabem organizar-se? E, se olharmos além das nossas pequenas fronteiras … existe uma organização internacional eficaz, prática e oficial?

Voltemos à reflexão do início: os números. Falamos sempre de arquitetos; os que exercem, os que não, e os que exercerão (os estudantes). Estes últimos são vistos desde a posterioridade, “no futuro serão arquitetos”. Mas a realidade é que somos arquitetos desde o momento que pisamos a escola. Somos arquitetos sem todos os conhecimentos, capacidades e aptidões necessários para exercer. Mas já somos criativos, ativos, prepositivos. A verdade é que ocupamos todos esses interstícios deixados pela falta do “título habilitante”.

Eu sou estudante; mexo-me; produzo. Sabemos quantos é que somos em Espanha? Façamos as contas: 33 escolas (19 públicas e 14 privadas). Só nas ETSAs de Madrid, Barcelona, Sevilha e Valência estão 1/3 do total de arquitetos registados. Em termos gerais, o número de estudantes e de profissionais assemelha-se surpreendentemente. As estatísticas não me interessam, já conhecemos os conceitos da relatividade. Interessam-me, sim, os potenciais: conhecer as possibilidades dessas dezenas de milhares de alminhas inquietas e energéticas que cada dia se dedicam de corpo e alma a esta carreira. De tudo o que podem fazer se lhes for proposto, mesmo antes de ter um título.

Os arquitetos organizam-se por Colegios (semelhantes à Ordem) por demarcações territoriais, representados pelo CSCAE (Consejo Superior de los Colegios de Arquitectos de España). Mas como é que se agrupam os estudantes? É possível que se perca o potencial humano devido à falta de organização?

É comum encontrar associações ligadas à universidade que promovem pequenas atividades e que lutam pelos direitos dos estudantes (de maneira mais local). Felizmente, também contamos com o CREARQ (Consejo de Representantes de Estudiantes de Arquitectura), constituído como associação estatal para a defesa dos interesses do coletivo estudantil de arquitetura, a sua coordenação e a sua representação perante a Administração Geral de Estado.

Mas jogamos mais à defesa do que ao ataque. Podemos dar um passo mais? Que projetos podemos empreender juntos? E, olhando além-fronteiras… podemos coordenar-nos internacionalmente de maneira eficaz, prática e oficial? Podemos gerar, aqui e agora, uma entidade internacional potente? Sim. Alias, já existe noutros lugares.

América Latina. Tal como em Espanha, os vários países latino-americanos já têm associações que zelam pelos interesses do coletivo; mas vão mais além: têm a CLEA. A CLEA é a Coordenadora Latino-americana de Estudantes de Arquitectura, uma organização sem fins lucrativos integrada em 16 países. Surge há 30 anos quando os “futuros arquitetos” decidem juntar-se para “canalizar as inquietudes sobre as cidades e a arquitetura latino-americana e estabelecer uma comunicação e intercâmbio entre eles”. Canalizar inquietudes, não só as preocupações; essa é a chave.

A CLEA organiza todos os anos o encontro ELEA, e o seminário social TSL, sempre realizado através dos coordenadores por países. Estes grupos nacionais representam o seu país perante o organismo internacional, realizam semestralmente reuniões presenciais para programas e eventos, e conformam uma “cultura arquitetónica estudantil”, em constante revisão.

Somos muitos. E isto não pode ser visto de forma negativa. O facto de sermos muitos também significa ter a capacidade de gerar outros mundos e, para tal, não faz falta esperar ter um papel assinado em mãos. Ser muitos significa ter as ferramentas necessárias para dar início a algo que se queira começar, mas isto requer esforço e ordem. Temos exemplos através dos quais aprender, e muito trabalho por fazer. Somos muitos. Organizamo-nos?


Texto traduzido por Inês Veiga
Autor:
(Almería, 1986) Arquitecta formada entre Granada, Venecia, Londres, Santiago de Chile y Madrid. Especializada en memoria y arquitectura popular (tesina de investigación, UGR), Asentamientos Humanos Precarios y Habitabilidad básica (postgrado UPM), realiza un activismo por investigación, documentalismo, divulgación y acción cultural, especialmente centrada en la experimentación arquitectónica, la cultura contemporánea y el medio rural.

Deja un comentario

Tu correo no se va a publicar.

Últimos posts