A formação do arquiteto e as suas mil saídas de emergência

Sejamos claros desde o início: a formação do arquiteto está a ser perigosamente desvalorizada. Num momento em que a sociedade se submete a exercícios de autocrítica contínuos, as Escolas de Arquitetura continuam sem reagir face à procura social e à do próprio setor profissional… Nem o coletivo profissional (CSCAE, Ordens de Arquitetos, etc.) mostrou nenhum interesse em aportar a sua visão do estado da profissão para emendar alguns erros e introduzir novas áreas de conhecimento que estão definitivamente presentes no nosso panorama profissional: ecologia urbana, design bioclimático e construção sustentáveis, projetos de reabilitação, proteção de património arquitetónico e paisagístico, design de mobiliário, etc.

A critica aos novos programas de estudo “bolonheses” implementados nas Escolas de Arquitetura não acabam com o nível “habilitante”, pois os estudos de pós-graduação (tipo “mestrado” ou “especialização”) também não foram estruturados pelos departamentos universitários com uma visão de conjunto que alinhe verticalmente os três níveis académicos (licenciatura>mestrado>doutoramento). O resultado é um mare Magnum de títulos muito dispares, que supõem frequentemente uma fraude às expetativas dos seus estudantese que só se explicam desde la perspetiva mercantilista dos estudos universitários na atualidade: a luta para conseguir clientela que garanta a viabilidade económica de muitos departamentos, faz com que esta oferta de estudos superiores se converta numa vil disputa por conseguir os favores do recém-titulado, ansioso por melhorar o seu CV com “novas medalhas” que lhe assegurem el êxito profissional.

Dos doutoramentos é melhor nem falar, pois o âmbito da investigação na Arquitetura justifica-se apenas para adquirir a habilitação necessária para poder inscrever a tese, mas não por legítimo interesse em somar-se a algumas das linhas de investigação aberta no departamento em questão (que, por certo, nunca existem como tal nas nossas ETSAs – Escolas Técnicas de Arquitectura). Assim, este nível de máxima qualificação em Espanha não tem nenhuma repercussão no exercício profissional salvo para o da docência universitária, e ao mesmo tempo que a criação de novas vagas para professores está inabilitada, de facto, por excesso de funcionários ou de professores “associados” (mão de obra muito barata, ao fim ao cabo), não é de estranhar que os únicos interessados na investigação formem parte desses professores low-cost e algum estagiário aspirante enquanto o período de estágio cubra a sua sobrevivência. Isso sim, depois engasgam-se os políticos e reitores de tanto apregoar as felicitações da investigação, o caminho para futuros campos laborais de qualidade e blá-blá-blá …

Com todo este caos em curso, não nos surpreendamos de que os Colegios de Arquitectos (Ordem de Arquitetos) se tenham somado à causa “festiva” da Formação, agarrando-se à lógica demanda de uma reciclagem contínua necessária no coletivo profissional. Ainda que a verdadeira razão resulte de novo mais pecuniária que outra coisa, tentando melhorar a conta de exploração de cada demarcação provincial, albergando cursinhos de formação de todo o tipo e natureza – até de “cockteleiros” tivemos, imagine… –, apenas para suportar os gastos que supõe manter aberta cada suntuosa sede colegial. Conformam-se os colegiados com cursinhos rápidos para estar ao tanto de tal ou qual questão, quando o natural seria que dita formação tivesse um corpo docente altamente qualificado e de que cuja participação ficasse devidamente reconhecida a efeitos de curriculum dos seus discentes. Este nicho de formação profissional não foi atendido de forma consensualizada nem pelas ETSAs nem pelos COAs, interessados ambos como deveriam estar em conseguir a máxima qualidade de formação de arquitetos, certo?

Continuamos a permitir que se resolva os problemas da nossa casa com “saídas de emergência”, quando o que deveria ser feito é afrontar com bravura o desafio de reabilitar a sua construção.

 

*A fotografia de capa:  Imagem retocada por Rodrigo Almonacid © r-arquitectura; fonte original: “diego3336” – Flickr


Texto traduzido por Inês Veiga.
Autor:
(Teruel, 1974) Arquitecto por la ETSA.Valladolid (1999) y doctor en Arquitectura (2013). Fundador del estudio [r-arquitectura], oficina de proyectos arquitectónicos y editor del blog de [r-arquitectura] . Investigador permanente sobre Arquitectura Moderna y Contemporánea, profesor de la ETSA.Valladolid, y autor del libro Mies van der Rohe: el espacio de la ausencia.

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