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“Dear David, You ask me what we architects should do about the unmistakably impending environmental catastrophe. About social inequality. About poverty. About the degradation of this planet’s resources. About the pandemic, which has placed us in an almost surreal mode that begs description. All of which is being managed by political leaders, whose cynicism and absurd actions put the Marx Brothers to shame.

Dear David, the answer is: nothing.

Or do you know of any moment in the history of architecture in which an architect contributed to the decisive issues of society? Architects have always kept company with the world’s mighty. They built palaces, temples, stadiums, entire cities. For the most part in the spirit of the times, and rarely as an expression of renewal and change.” A versão está disponível no site do atelier suíço ou na web, https://www.domusweb.it/en/architecture/2020/10/13/jacques-herzog-letter-from-basel.html?fbclid=IwAR3vtP779Ey9nHFpxrdi4ANo3ZB__T1XSXMTxLDoduG4S5ODLSrSd0xnGDw

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“Wage rolls for May 1795 list five enslaved people [who labored to build the White House], Tom, Peter, Ben, Harry and Daniel, four of whom were owned by White House architect James Hoban. Daniel was owned by Hoban’s assistant, Pierce Purcell.”, https://www.whitehousehistory.org/press-room/press-backgrounders/slavery-and-the-white-house

Um tiro no pé

 

Resposta de Jaques Herzog a David Chiperfield, imagem própria

“Um tiro no pé”. Foi assim que a crítica mais sesuda descreveu a sincera e descarnada correspondência tornada pública entre David Chiperfield e Jacques Herzog. Nela, o arquiteto inglês perguntava ao colega o que poderiam fazem os arquitetos face à mudança climática, às desigualdades sociais e à atual pandemia, quando até a própria classe política tem um comportamento vergonhoso. A resposta do suíço foi claríssima: “nada”1. “Ou será que conheces algum momento na história da arquitetura em que o arquiteto contribuiu para resolver questões cruciais da sociedade?” …

Os arquitetos, continua o suíço, sempre viveram graças aos pedidos dos poderosos e procuram sistematicamente a fama porque lhes traz mais trabalho. A equação é simples e, embora suspeita do pior, parece que não mudou muito ao longo do tempo. Mesmo sendo a realidade da arquitetura tão crua e amoral como Herzog a expõe, parece que alguma coisa deve mudar.

Será que não passa de um mero ataque momentâneo de sinceridade? Mesmo assim, continua, nesse pobre campo de jogo existem pequenas oportunidades de melhora: em regimes totalitários, como lhe aconteceu em primeira mão na China com o seu pavilhão olímpico, devem-se fazer propostas onde haja resquícios para que as pessoas possam usar o espaço de uma forma mais “democrática”… Está a falar a sério? É só isso?

Para muitos, o tom de latente hipocrisia é insuportável. Certamente não o é para aquelas empresas que estão imersas na dura vida quotidiana dos grandes projetos de arquitetura. O seu “é o que há” tem poucas réplicas possíveis. No entanto, uma das mais convincentes vem do mundo académico americano, através de uma simples metáfora: “As listas de salários [que trabalharam para construir a Casa Branca] de maio de 1795, fazem referência a cinco personas escravizadas, Tom, Peter, Ben, Harry e Daniel. Quatro deles eram propriedade do arquiteto da Casa Branca, James Hoban. Daniel era propriedade do assistente de Hoban, Pierce Purcell”2. Ou seja, devemos confiar na crescente consciência do futuro para resolver as desigualdades do presente? Esperar é suficiente? Estará o melhor das sociedades atuais fundado nas injustiças irreparáveis?

Contudo, de certeza que existem outras respostas possíveis para as questões levantadas por Chiperfield. Mesmo que não se queira recorrer à mais simplesmente disciplinar delas, isto é, que não se queira aludir ao facto de que esta profissão pode invocar beleza com o seu trabalho (com todo o poder transformador que tem), pelo menos, e com o seu comportamento e obras, o arquiteto deveria ser “exemplar”. No melhor e mais profundo sentido que tem, hoje, esta palavra3.

Entre as pútridas águas estagnadas daquela arquitetura incapaz de responder a coisa alguma, nos termos da prática inação nos que Herzog a formula, a exemplaridade ainda é o primeiro (e único?) dos exercícios políticos possíveis para o arquiteto. A exemplaridade é, de facto, a única ação de caráter verdadeiramente radiante que lhe resta por fazer. Exemplaridade orçamentária, formal, de recursos e de solo. Como diria o filósofo Javier Gomá, uma exemplaridade individual tornada hoje mais pública que nunca.

Se o arquiteto não pode tomar partido político de maneira eficaz, se renuncia à produção romântica do transcendente, e até à sombra de qualquer papel heroico, mesmo exercido graças à sua influência social pela mera relação com o poder, o mínimo que se pode esperar dele é uma “oferta de senso”. Ou seja, a possibilidade de transformar os outros com o seu próprio comportamento. Milhares de aprendizes de arquiteto esperam, no mínimo, esta exemplaridade das figuras que estudam dentro das paredes de uma sala de aula.


Texto traduzido por Inês Veiga. 
Notas de página
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“Dear David, You ask me what we architects should do about the unmistakably impending environmental catastrophe. About social inequality. About poverty. About the degradation of this planet’s resources. About the pandemic, which has placed us in an almost surreal mode that begs description. All of which is being managed by political leaders, whose cynicism and absurd actions put the Marx Brothers to shame.

Dear David, the answer is: nothing.

Or do you know of any moment in the history of architecture in which an architect contributed to the decisive issues of society? Architects have always kept company with the world’s mighty. They built palaces, temples, stadiums, entire cities. For the most part in the spirit of the times, and rarely as an expression of renewal and change.” A versão está disponível no site do atelier suíço ou na web, https://www.domusweb.it/en/architecture/2020/10/13/jacques-herzog-letter-from-basel.html?fbclid=IwAR3vtP779Ey9nHFpxrdi4ANo3ZB__T1XSXMTxLDoduG4S5ODLSrSd0xnGDw

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“Wage rolls for May 1795 list five enslaved people [who labored to build the White House], Tom, Peter, Ben, Harry and Daniel, four of whom were owned by White House architect James Hoban. Daniel was owned by Hoban’s assistant, Pierce Purcell.”, https://www.whitehousehistory.org/press-room/press-backgrounders/slavery-and-the-white-house

Autor:
Arquitecto y docente; hace convivir la divulgación y enseñanza de la arquitectura, el trabajo en su oficina y el blog 'Múltiples estrategias de arquitectura'.

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