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Não queremos que se interprete este texto como um elogio à baixa densidade e subscrevo o que o meu amigo Diego Carreño disse quando a elogiou há pouco AQUI 

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Penso no Música en Seguraum festival de delicatessen musicais em Segura de la Sierra (Jaén), cuja edição programada para maio deste ano foi cancelada. No entanto, programaram uma serie de concertos para desfrutar em casa; e incluso na Boiler Room, uma conhecida plataforma internacional de música (techno, house, rap,…) começou uma serie de sessões que se chamam Streaming from Isolation, com o objetivo de que a música continue a chegar à audiência, mas a partir da casa de cada artista e não dos clubs ou espaços onde antes se reuniam centenas de personas.

 

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Mochuflas é um termo inventado por Santiago Lorenzo para se referir a uma espécie de urbanoide… A versão original é em espanhol, mas, se puderes, é melhor leres o livro, que é muito divertido, e também ensina umas coisinhas.

Da cidade ao campo ou a urgência de uma vida com menos emoção

Dando seguimento à reflexão que começámos no post anterior, citávamos a antiga Presidente da Câmara de Madrid quando dizia que “a cidade cuida de ti” e é verdade que foi assim. A pesar da sua densidade, o continuo contacto interpessoal ou o transporte público contribuíram a que fossem muitos os que tiverem de ser cuidados, em comparação com os poucos que precisavam em lugares onde a densidade brilha pela sua ausência e a possibilidade de contágio se limitava a alguém transmissor vindo de fora.1

Desta situação, aprendemos que é possível trabalhar, melhor ou pior, quase com completa normalmente, em muitos casos a partir de casa, reduzindo o cansativo presentismo laboral dos escritórios que danifica a conciliação familiar. Será possível ficar em casa e conseguir trabalhar ou ser prudente e não ir trabalhar doente, constipado, com gripe ou “todo roto”, que nem se sabia as funestas consequências que se podia ter dispersado no local trabalho.

A desgraça e a tristeza da epidemia estão aqui e não se sabe por quanto tempo. No entanto, pode ser que valorizemos mais as coisas que antes dávamos por garantidas. Qualquer ocasião será muito mais especial e é possível que deixe de haver as viagens “relâmpago” para uma reunião que pode muito bem ser feita através de uma simples videoconferência, nem escapadinhas de fim de semana para ver uma inauguração em Londres ou para um evento musical ou desportivo noutra capital europeia.

A ideia apresenta-se triste e perdemos vida, não haja dúvida, mas essas viagens e outros hábitos que agora são menos frequentes far-nos-ão pensar se tudo aquilo era necessário ou se a leitura de um bom catálogo comentado e uma visita virtual ou um concerto em casa como estão a propor, com sucesso, muitas plataformas e até organizadores de eventos musicais2 é suficiente.

Serão renúncias que tornarão as nossas vidas um pouco menos emocionantes, mas também farão com que valha a pena o esforço individual – económico, organizativo, de tempo –, mas também coletivo – meios e comunicação, poluição, transporte, danos no planeta, risco de contágios – que aumentam sempre que estas ações habituais acontecem, até agora.

Talvez, como diz no livro de Santiago Lorenzo, “Os nojentos” seremos os que vamos ao campo com a parva mentalidade do habitante da cidade, que quer fazer o mesmo, mas com uma paisagem diferente de fundo. Então, mereceremos que nos chamem “mochuflas”,3 porque não aprendemos nada. Mas se somos capazes de melhorar o nosso relacionamento com o meio ambiente por causa desta desgraça, talvez esta tristeza infinita tenha um mínimo de consolo.


Imagem: Fotografía do autor Paco Casas.
Texto traduzido por Inês Veiga.

Notas de página
1

Não queremos que se interprete este texto como um elogio à baixa densidade e subscrevo o que o meu amigo Diego Carreño disse quando a elogiou há pouco AQUI 

2

Penso no Música en Seguraum festival de delicatessen musicais em Segura de la Sierra (Jaén), cuja edição programada para maio deste ano foi cancelada. No entanto, programaram uma serie de concertos para desfrutar em casa; e incluso na Boiler Room, uma conhecida plataforma internacional de música (techno, house, rap,…) começou uma serie de sessões que se chamam Streaming from Isolation, com o objetivo de que a música continue a chegar à audiência, mas a partir da casa de cada artista e não dos clubs ou espaços onde antes se reuniam centenas de personas.

 

3

Mochuflas é um termo inventado por Santiago Lorenzo para se referir a uma espécie de urbanoide… A versão original é em espanhol, mas, se puderes, é melhor leres o livro, que é muito divertido, e também ensina umas coisinhas.

Autor:
Beatriz Villanueva es Doctora en Proyectos arquitectónicos avanzados, Master en Arquitectura, Master en Proyectos Arquitectónicos Avanzados por la Escuela Técnica Superior de Arquitectura de Madrid y Master en Gestión de Espacios Virtuales por la Fundación Camuñas, Escuela de Arquitectura del C.E.U., Madrid. Francisco J. Casas es Arquitecto, Master en Análisis, Teoría e Historia de la Arquitectura y PhD Candidate con su tesis “Fundamentos Historiográficos, Teóricos y Críticos de los años 50” dentro del Departamento de Comunicación Arquitectónica (ETSAM). Fueron Embajadores de la IV Bienal Arquia Próxima y Comisarios de “Menáge a Trois”, “F. A. Q.”, “Portfolio Speed Dating” y “Tres (2013) y Cuatro (2014-15) sesiones Al Borde de la Crítica” y de la exposición "Couples & Co.: 22 Mirror Stories of Spanish Architecture" en Berlín (2015), Hamburgo (2016), Sevilla (2016) y Granada (2019). Han sido profesores en IED Madrid, MADinU Salamanca, Universidad Europea de Madrid, UCJC, ETSA Zaragoza USJ y Summer School AA (Londres). Viven en Riad (Arabia Saudí) desde agosto de 2014 y son profesores en Prince Sultan University y Alfaisal University respectivamente.

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