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1

Sharr, Adam. (2015). La cabaña de Heidegger. Un espacio para pensar. Barcelona: Editorial Gustavo Gili.

 

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Heidegger, Martin. (1951). «Construir, Habitar, Pensar».

O enraizamento emocional para com o construído

Piazza d’Italia, 1952. Giorgio de Chirico

Uma imagem tem capacidade de transportar a outros lugares da memória; a matéria, o espaço, o tempo e a experiência são constantes na narrativa que constrói o nosso meio e a realidade individual. Apesar da questão da vivência do espaço depender das características do meio e de como estas incidem nos nossos sentidos, há uma complexidade maior que envolve a perceção individual do espaço e de como cada pessoa o vive. A perceção é um universo complexo e esta complexidade leva-nos a interiorizar o meio: a relação emocional com o que está construído. O enraizamento emocional com o espaço tem diferentes origens e pode ser analisado desde diferentes pontos de vista, como, por exemplo, a linguagem, o social, o cultural, o político e até o espiritual.

O espaço: do emocional ao pessoal

Quando Heidegger se mudou para a sua cabana na floresta alemã de Todtnauberg em 1922, não lhe faltava sítios para viver. Ele, às vezes sozinho, outras com a sua família, alternava estadia entre a sua casa em Rötebuckweg e os destinos que lhe eram atribuídos pelo seu trabalho na universidade. Mas a cabana teve outro papel. Para o filósofo, representou o lugar de retiro e de austera solidão voluntária, o espaço onde encontrar-se, «a reivindicação de intimidade emocional e intelectual com o edifício»1. Na cabana, produziu uma boa parte das suas obras com uma relação espacial que ele encontrava inerente no edifício, com a paisagem, com as montanhas.

Virginia Woolf falou pela primeira vez de um quarto próprio em 1929 como parte de um discurso no qual este espaço permitia enriquecer a própria intimidade, o que referia simultaneamente uma reivindicação justa pela conquista da independência feminina. A questão que levantava nessa época supunha a pretensão de um espaço próprio, um desafio aos convencionalismos da altura. O seu argumento foi um contraste e expunha que, além do poder das mulheres sobre o espaço doméstico, havia o poder das mulheres de escolher o seu próprio espaço.

O que queriam – Woolf e Heidegger – expressar de alguma forma era o direito ao seu próprio espaço; a necessidade de um território que, por mais pequeno que fosse, apenas podia ser governado pelo eu individual. Embora o espaço construído marque presença no físico, no material e no visual, existe além disso uma construção psíquica e emocional do meio. De facto, para Heidegger, a experiência tinha o poder da construção em relação ao habitar e ao sentido de lugar: «Não habitamos porque construímos, construímos e continuamos a construir na medida em que habitamos, isto é, enquanto somos nós que habitamos»2. Habitar é uma forma de experimentar o espaço, o tempo, de criar memórias, relações e enraizamentos desde a complexidade de cada um, desde a universalidade de todos nós como ssociedade.

Notas de página
1

Sharr, Adam. (2015). La cabaña de Heidegger. Un espacio para pensar. Barcelona: Editorial Gustavo Gili.

 

2

Heidegger, Martin. (1951). «Construir, Habitar, Pensar».

Autor:
Arquitecta con especialización en urbanismo, paisaje y edición editorial. Después de trabajar en distintos estudios de arquitectura me desempeño de forma independiente. Me dedico a la investigación en el campo de lo urbano, la ciudad, la movilidad, el espacio público, el paisaje y lo social; todos estos son algunos de los temas sobre los que escribo. Colaboro como divulgadora en medios digitales; soy co-editora en la plataforma Urban Living Lab y corresponsal en La Ciudad Viva y en Arquitasa. Registro mis reflexiones en mi blog y comparto en twitter como @gaudi_no

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