1

Antonio Fernández Alba, “Saltando las correctas normas de los epígonos,” em Cinco cuestiones de arquitectura (Madrid: Taller de Ediciones Josefina Betancor, 1974), 100.

 

2

Marco Biraghi, L’architetto come intellettuale (Turim: Giulio Einaudi Editore, 2019), 183-184.

O arquiteto como produtor

 

No começo do ano letivo, Eva Franch i Gilabert (a nova diretora da AA) afirmava no El País Semanal que o desafio da Architectural Association, «mais que formar arquitetos (…), é formar através da arquitetura grandes criadores e pensadores.» Ao acabar o ano, Patrik Schumacher soltava novamente a polémica ao descrever em treze pontos a crise generalizada na que se encontra o ensino da arquitetura, completamente desligado da realidade profissional. Segundo o arquiteto, não há alternativa à implantação de um Programa de Estudos comum, regido por um novo paradigma: parametricismo.

A distância entre escola e profissão é um debate já tradicional na cultura arquitetónica, que ressurgiria com especial força a mediados do século passado perante a imperiosa necessidade de técnicos qualificados capazes de enfrentar a crescente demanda construtiva. Uma discussão que se inscrevia, por sua vez, no debate sobre “As Duas Culturas,” uma humanística e outra científica, e nas quais tradicionalmente também se divide o Arquiteto. Já nos anos setenta, Antonio Fernández Alba afrontava este debate com asceticismo ao afirmar:

“[os arquitetos] (…) um pouco técnicos, algo de artistas e sociólogos (…), figuras híbridas de duvidosa definição, tão duvidosa que ninguém, consciente da realidade da nossa época, poderá continuar a manter ou a sentir falta da “mítica figura” deste estranho mediador e coordenador das técnicas e das humanidades.”1

Hoje em dia, a “mítica figura” do arquiteto como coordenador de uma vasta série de saberes surgida no Renascimento já está praticamente extinta. A organização de um atelier de arquitetura agora não só se estabelece através da tradicional escala ascendente Junior, Senior, Associate e Partner Architect, como também começou a aparecer toda uma série de profissionais altamente especializados que já não têm que possuir necessariamente uma formação arquitetónica. Trata-se dos BIM Manager, Fire Consultant, Planning AdvisorSpecification WriterVisualizer, e assim por diante até quase uma infinidade de disciplinas nas quais atualmente se subdivide até o mais pequeno dos pedidos, e que tornam muito difícil diferenciar o trabalho que se produz num atelier de arquitetura das condições alienantes de uma linha de montagem. Neste contexto, não me estranha que Patrik Schumacher reclame às escolas de arquitetura uma ampla gama de especialistas técnicos, “técnicos invisíveis,” que permitam dar forma aos seus sonhos paramétricos. No entanto, também não devíamos aceitar uma definição profissional desentendida destes ofícios. Tal como Peggy Deamer salientou, desenhos menos definidos não só significam atrasos, mas também implicam uma “perda de poder” do arquiteto.

Face à rápida mudança na que estão imersos os ateliers de arquitetura e, em especial, a produção de arquitetos, se devemos manter alguma constância, como referiu recentemente Marco Biraghi: esta seria o projeto arquitetónico. Mas não reduzido a uma série de condicionantes prévias que determinam o construído, mas no sentido mais amplo da palavra “projetar” — de proposição de uma ideia ou finalidade — que se insere no contexto da cidade e se define através de um esforço coletivo2. Como Biraghi aborda: nesta forma de entender o projeto, o arquiteto apresenta-se como produtor, no sentido apontado por Walter Benjamin, ou seja, aquele que, intervindo no processo produtivo, tem capacidade de o modificar.


Texto traduzido por Inês Veiga.

Notas de página
1

Antonio Fernández Alba, “Saltando las correctas normas de los epígonos,” em Cinco cuestiones de arquitectura (Madrid: Taller de Ediciones Josefina Betancor, 1974), 100.

 

2

Marco Biraghi, L’architetto come intellettuale (Turim: Giulio Einaudi Editore, 2019), 183-184.

Autor:
Arquitecto, vive y trabaja en Londres. Doctor por la ETSAUN (Pamplona), MA en History & Critical Thinking por la Architectural Association School of Architecture (Londres). María ha participado en distintas conferencias internacionales y ha sido también profesor ayudante de la ETSAUN, “Visiting Lecturer” en la School of Creative Arts de la Universidad de Hertfordshire (Hatfield, RU) y crítico invitado en la Architectural Association (Londres, RU).

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