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N. de T.: Este post fala de valores de Espanha, visto que o artigo original é espanhol, embora aqui não sejam muito diferentes, à exceção da OA.

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Valores aproximados, sem contar com ofensas nem promoções iniciais, já que são os que devem ter-se em consideração para quantificar a viabilidade.

O preço de empreender

Está mal. Está tudo mal. Até há uma frase de Coelho… Isto só podia começar pior se o post se intitulasse: “5 coisas pelas quais não deverias ser entrepreneur”.

Mas enfim, já que isto é o que a malta quer, vamos a isso:

“Um jovem arquiteto empreendeu, e o que lhe aconteceu depois surpreender-te-á…”

Quando acabas o curso demoras pelo menos uns 5, 6 ou 7 anos a ouvir “vocês têm que se reinventar”, “devem reciclar-se” e outras frases do género, vazias, que o único que fazem é tapar um desconcerto total face à situação atual do setor.

Ainda assim, e para surpresa de muitos, a maioria dos que estudam arquitetura querem ser arquitetos. Quem diria, hã? Como se costuma dizer em Espanha, não há nada mais perigoso que um utópico motivado, ou seja, é melhor prepara-se para começar a voar sozinho e a fazer as contas1:

Descontos de trabalhador independente: 250 €/mês
OA 25 €/mês
Seguro 25 €/mês2
Coworking Escritórios Compartilhados 200 €/mês
Telefone 30 €/mês
Transporte 50 €/mês
Assessoria 30 €/mês
TOTAL 610 €/mês

 

“Uff… Mais de seiscentos eurinhos por mês em despesas fixas.”

É em momentos como estes que entendes porque é que 9 em cada 10 empresas encerram antes de fazer 3 anos. Mas ainda assim não deixas que o medo te controle e pegas na calculadora: “vamos lá ver.… para conseguir pagar isto quanto é que tenho de ganhar?”.

Este é o próximo ponto critico, o de descobrir que os primeiros 1000 euros que ganhas cada mês já estão destinados aos gastos fixos. Mil euros que são, para aqueles que ainda estão nos corredores das universidades de Arquitetura, tipo 10 certificados energéticos, 2 ou 3 relatórios pequenos ou um projeto de uma piscina, em cujo caso tens de ver quanto destinas à Ordem e ao seguro. Isto se conseguires fazer um preço competitivo, coisa que ninguém se dignou a explicar-te como funciona, mas não te preocupes, existem sites e pdfs como estes onde podes calculá-los.

Agora bem, há que dividir esses valores por 2 ou 3 e, ainda assim, pode continuar a parecer caro.

Entretanto passam os primeiros meses. Os teus amigos ligam-te menos vezes da tomar uns copos que antes, enquanto estavas a fazer o PFC. Quase não chega para pagar as despesas. Na tua casa convencem-se que estás metido nalgum tipo de seita: não tens dinheiro, não tens tempo, e só pensas em como a tua startup o teu atelier pode ser rentável. Trabalhas 16 horas por dia, de segunda à sexta. Com um pouco de sorte alguém te diz que existe vida além das licenças, dos concursos e do preço por metro quadrado de mosaico hidráulico.

E nalguma noite, já em total desespero, acabas clicando num desses banners anúncios das tuas redes sociais que dizem coisas tipo “7 hábitos dos entrepreneurs bem-sucedidos”. E assim descobres como, sem qualquer pudor, aqueles que não conseguiram manter os seus próprios atelier tratam de te explicar a ti como gerir o teu. “Aumente os orçamentos”, “Trabalhe menos”, “Expanda-se”, “Arrisque”, “Especialize-se”.

Correu-lhes muito bem, não haja dúvida.

Passa um ano, e outro, e outro. Com o que recebes de um trabalho pagas o seguinte e assim consecutivamente, como uma roda sem fim. Inevitavelmente, acabas por ir a um desses jantares de verão onde vês os teus amigos, esses que tão próximos eram antes de te dedicares de corpo e alma ao teu projeto. E é nesse momento que te apercebes que trabalhar a full-time, com um salário fixo não era assim tão mau, ou que talvez até seja preferível ter um chefe que ser um empregado de cada cliente, já para não falar dos subsídios, esses que te permitem ir de férias.

Assim que, a próxima vez que alguém te diga “perdedor, porque é que você não empreende?“, lembra-te do conselho que Bukowski dava a todos os jovens que queriam ser escritores:

Se não sai de ti a explodir,

apesar de tudo,

não o faças.

a menos que saia espontaneamente do teu coração

e da tua mente, e da tua boa,

e das tuas entranhas,

não o faças.”


Texto traduzido por Inês Veiga
Notas de página
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N. de T.: Este post fala de valores de Espanha, visto que o artigo original é espanhol, embora aqui não sejam muito diferentes, à exceção da OA.

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Valores aproximados, sem contar com ofensas nem promoções iniciais, já que são os que devem ter-se em consideração para quantificar a viabilidade.

Autor:
(Murcia, 1986) Arquitecto y Arquitecto Técnico por la UCAM. Dirige el blog Pedacicos Arquitectónicos junto a Antonio Navarro y Juan Francisco Martínez además de MetaSpace Blog junto a Manuel Saga, desarrollando paralelamente su labor profesional en el campo de la construcción, el diseño y la docencia.

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