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O pronome pessoal “elas” engloba também a menino/meninos. A intenção não é sexista, mas de respeito para com os ritmos de leitura.

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“Capuchinho Vermelho e o CovidLobo” é uma história gráfica criada por Heike Freire (educadora e investigadora) e Rocio Peña (diretora de arte e ilustradora) que pretende minimizar as consequências que a crise sanitária possa ter no desenvolvimento das crianças.

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Loris Malaguzzi considerou o meio físico como um “terceiro professor” dentro do sistema de aprendizagem, depois do professor e das outras crianças. No post, refere-se à cidade como esse “terceiro professor” formado por espaços –cheios e vazios– ampliando o meu educador para lá da escola: a cidade.

Tudo verificado

Ilustração: TODO COMPROBADO, ilustração de Elisa C (2020)

Caderno ✓

Pequeno-almoço ✓

Gel de mãos ✓

Máscara suplente ✓

Vontade ✓✓✓

 

Tudo verificado. A Penélope está preparada para o regresso às aulas. Passaram seis meses desde que ela, e mais de 8 milhões de crianças espanholas, ficaram fechadas durante meses sem poder sair à rua. Elas1 diziam que era «a melhor maneira» para combater o CovidLobo2, e a Penélope não pôde abraçar os seus amigos, jogar à bola ou ver o sorriso de Noa durante meses. Mas agora também não poderá. Passaram seis meses e a Penélope está preparada para o regresso às aulas. Eles opinam que ela está.

Durante este tempo, não pararam de aparecer na televisão.

Eles. Que tomam decisões que afetam a Penélope: quanto tempo teria de ficar fechada, quando voltaria a brincar com a Noa ou como seria o seu regresso às aulas.

Eles. Que falam de crianças, mas sem crianças.

E nem sequer pediram a opinião da Penélope.

Nem a das outras crianças.

Mas isso não tem importância.

Eles é que têm.

 

Na escola, a Penélope tem de usar máscara, lavar as mãos e manter distância dos outros para evitar o contágio. Para que Eles se possam reunir com amigos em explanadas e casas de apostas, a Penélope não poderá partilhar os seus lápis com a Noa nem tocar nos seus amigos na escola. Mas isso não tem importância. Só Eles é que têm.

 

Metro e meio é a distância que as crianças devem manter na sala de aula, mas a Penélope estende o braço e pode tocar na Noa. São caixas de sapatos: 50 m2 para 25 alunos. Aproximadamente 2m2 por criança. Isto, na melhor das hipóteses. Uma porta e janelas para o exterior; são os únicos recursos para ventilar essa caixa no verão. E no inverno também, quando a Penélope não puder tirar o casaco, enquanto Eles descansam nos seus escritórios equipados com ventilação mecânica. Mas isso não tem importância. Só Eles é que têm.

 

A sala de aula da Penélope não pode comunicar-se com outras salas de aula porque há uma parede cega que as separa. Não têm possibilidade de se abrir para o corredor porque estão separados, também, por uma parede – com uma porta – cega. Podiam ir ao bosquezinho do pátio para dar a aula, ou ampliar o espaço de aprendizagem para lá da sala de aula: utilizar os espaços – cheios e vazios – da cidade como rede de aprendizagem, na qual ruas, praças e parques, ou até museus, fábricas ou oficinas fizessem parte do meio educativo da escola da Penélope. A cidade como terceiro professor.3 Uma proposta que alterasse os alicerces de um sistema tradicional de educação que grita por uma mudança. Que precisa de uma mudança. Agora mais do que nunca. Mas na cidade da Penélope, isso não tem importância. Só… Rrrrrrrrrrring!

 

Toca o despertador. Foi só um sonho pesadelo.

Caderno ✓

Pequeno-almoço ✓

Gel de mãos ✓

Máscara suplente ✓

Vontade ✓✓✓

 

Tudo verificado. A Penélope está pronta para ir para a escola e mal pode esperar para contar o seu pesadelo à Noa: um lugar onde a educação e as crianças não têm importância.

 

Porque, se não contarmos os pesadelos, estes tornam-se realidade…


Texto traduzido por Inês Veiga. 
Notas de página
1

O pronome pessoal “elas” engloba também a menino/meninos. A intenção não é sexista, mas de respeito para com os ritmos de leitura.

2

“Capuchinho Vermelho e o CovidLobo” é uma história gráfica criada por Heike Freire (educadora e investigadora) e Rocio Peña (diretora de arte e ilustradora) que pretende minimizar as consequências que a crise sanitária possa ter no desenvolvimento das crianças.

3

Loris Malaguzzi considerou o meio físico como um “terceiro professor” dentro do sistema de aprendizagem, depois do professor e das outras crianças. No post, refere-se à cidade como esse “terceiro professor” formado por espaços –cheios e vazios– ampliando o meu educador para lá da escola: a cidade.

Autor:
Arquitecta por la ETSAS (2017). Su proyecto final de carrera Paisajes Domésticos: sobre la arquitectura, lo social y el juego ha sido seleccionado en la Bienal de Venecia 2018. Creatividad, ganas e ilusión por mejorar cada día son características que la definen. Actualmente estudia el Máster de Diseño de Instalaciones en Arquitectura y Eficiencia Energética.

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