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Escrever arquitetura, 1/4: O livro matou a arquitetura

Imagem: capa do livro Une petite maison, de Le Corbusier

 

O livro matou a arquitetura. Frase dita por um arquiteto que tinha uma biblioteca. Embora esta seja, na verdade, um típico clickbait. Um clickbait antes de existirem os clicks. Traduzo: escrever um projeto é desnaturalizá-lo. É arquiteto quem constrói. Quem mete tudo aquilo que puder na sua intervenção. A melhor coisa que se pode fazer depois é ir-se e deixar que os outros vivam e interpretem a obra, o que não deixa de ser outra forma de a viver. Sempre acreditei na arte autorreferencial, ou seja, na arte que se conta a si mesma. Se se é capaz de fazer isto, o que nem sempre acontece (ups!), deixas que a obra se defenda por si só e segues para a próxima. Não é preciso justificá-la, nem dar uma lista de referências ou escrever um livro sobre ela. Só a ideia de o fazer é redundante. Prova disso é que tenho dedos mais do que suficientes numa mão para enumerar os livros que valem a pena que tenham sido escritos por um arquiteto sobre o seu próprio projeto. Agora que já deixámos isto claro, surge a pergunta: A arquitetura pode ser feita por escrito?

 

A resposta é sim! A escritura é uma arma de projeto e, mais importante ainda, a escritura é uma arma de construção de arquitetura. Este artigo faz parte de uma trilogia que conta como. Para a realizar, descartei tudo o que implica uma escritura operativa dentro de um projeto. Ou seja, não vou falar do pensamento crítico inerente à arquitetura, muitas vezes expresso em forma de notas. Também não vou falar daqueles arquitetos que escrevem para projetar, uma extensão do ponto anterior.

 

Aqui enumerarei o que a escritura como tarefa, como arte, como ofício, pode fazer pela arquitetura, de preferência de dentro da própria arquitetura. Resumo: falar-vos-ei sobre como fazer arquitetura escrevendo. O que não, e repito, o que não implicam estes livres é que matam a arquitetura ao pretender justificar um projeto acabado, dando supostas chaves para a sua interpretação. Eu a isto chamo, dependendo do grau de honradez e/ou das boas intenções de um arquiteto, literatura, ficção ou especulação. Nestas condições, é fácil cair na sobre interpretação, ou seja, quando o livro é melhor que o projeto, e então nenhum dos dois tem razão de ser, um por não ter o que precisa, o outro por concentrar esforços que deveriam ter sido dedicados à construção.

 

Arquitetura é a arte da construção do lugar. Como tal, refere-se ao facto construído. E este facto construído é tão complexo que requer apoio da escrita. Proponho-vos uma viagem através das maneiras de o exercer.


Texto traduzido por Inês Veiga. 
Autor:
(Barcelona, 1975) Arquitecto por la ETSAB, compagina la escritura en su blog 'Arquitectura, entre otras soluciones' con la práctica profesional en el estudio mmjarquitectes. Conferenciante y profesor ocasional, es también coeditor de la colección de eBooks de Scalae, donde también es autor de uno de los volúmenes de la colección.

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