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N. de T.: Trocadilho sobre a famosa frase proferida pelo Presidente do Governo espanhol, Carlos Arias Navarro, quando anunciou televisivamente que Franco tinha falecido, em 1975.

A arquitetura morreu

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Espanhóis… a Arquitetura morreu.1

Não pretendo ser alarmista, mas a verdade é que morreu.

O matámo-la. Como o capitão do Titanic, temos estado a conduzir (sem querer?) a Arquitetura para um iceberg que não nos poderia levar a nenhum lado além de um estrondoso naufrágio.

O excesso de pedidos de projetos e a pomposidade económica do início do século, longe de gerar melhores arquiteturas, levaram-nos a “fabricar” edifícios em série com a exígua reflexão que implica um copy-paste. A isto, somam-se as arquiteturas espetaculares que mal-interpretam que o único serviço que a Arquitetura icónica deveria oferecer à cidade era gerar postais para turistas.

Por ação ou omissão, nós, os arquitetos, deixámos a Arquitetura morrer. No primeiro caso, abandonada à sorte dos promotores e construtores, cujo principal interesse era económico, sem priorizar os interesses inalienáveis à Arquitetura. No caso das segundas, por nos querermos ajoelhar perante a egolatria política que buscava uma primeira página de algum jornal, ignorando os verdadeiros parâmetros que compõem a Arquitetura.

Agora queixamo-nos porque a profissão perdeu prestígio e, com ele, honorários dignos.

Mas a profissão não perdeu prestígio. Embora seja injusto generalizar, nós – os arquitetos – demo-la de mãos beijadas, deixando-a em mão vazias de conhecimentos teóricos.

Enquanto a orquestra continua a tocar, esquecemo-nos (ou omitimos) algo tão primigénio como a Santíssima Tríade vitruviana: Firmitas, Utilitas e Venustas.

A Arquitetura, a de verdade, deve ser sólida. Mas também deve dar resposta a uma função. E mostrar, também, uma qualidade estética objetiva.

A Arquitetura que elude a função não passa de uma mera escultura. E, da mesma maneira, a Arquitetura sem valor estético é uma simples edificação.

Não pretendo ser alarmista, mas sim, a Arquitetura morreu.

Não sou eu que o digo; reconhecia-o recentemente uma voz tão autorizada como Álvaro Siza:

<<A Arquitetura acabou… Se eu faço um trabalho para o senhor tal, e depois é o construtor que paga… tens de aceitar tudo o que diga o construtor. Não podes fazer outra coisa.

E o construtor tem de ganhar dinheiro. Antes, o arquiteto podia exigir porque assinava o contrato diretamente. Agora é o construtor, e tem outros interesses que são incompatíveis com fazer boa Arquitetura>>.

A arquitetura morreu. Nós matámo-la.

Ou como mínimo, deixámo-la morrer. Limitamo-nos a dar ao cliente o que queria, sem pensar mais, como se um médico receitasse as medicações dos pacientes sem realizar o devido diagnóstico.

Viajamos confiantes na nossa cabine em primeira classe para acabar correndo para verificar com frustração que os botes salva-vidas do Starsystem não tinham lugares para todos, enquanto o grosso da profissão devia escolher entre saltar do barco e reinventar-se no trabalho ou sobreviver à rasca, agarrado a alguma tábua em forma de pequeno e mal pago pedido de projeto.

Mas não pretendo ser alarmista. Se a matámos, também teremos oportunidade (e responsabilidade) de a reanimar. E para isso, devemos lembrar-nos de que a Arquitetura desempenha uma importante função social. E não se trata de dar às pessoas o que elas querem, mas de compreender e fornecer à sociedade o que esta realmente precisa.

A arquitetura morreu… Longa vida à Arquitetura!


Texto traduzido por Inês Veiga.
Notas de página
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N. de T.: Trocadilho sobre a famosa frase proferida pelo Presidente do Governo espanhol, Carlos Arias Navarro, quando anunciou televisivamente que Franco tinha falecido, em 1975.

Autor:
Arquitecto formado en la U. Europea de Madrid y la New School of Architecture and Design de San Diego (California, USA). | MArch bajo la docencia de Álvaro Siza, E. Souto de Moura, Aires Mateus, Carlos Ferrater o Fran Silvestre (con quien ha colaborado) entre otros. | Actualmente desarrolla su Tesis Doctoral sobre la materialidad de la luz natural y su carácter cinético en la obra de Siza, lo cual compagina con el trabajo del estudio (www.raulgarcia-studio.com)

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