Questão de metros

Volto de Dubai, lugar que me fascina e repele em proporções variáveis, depois de uma terceira ou quarta visita a esta cidade instantânea que, há um tempo, nunca pensei conhecer em primeira mão.

Visitei pela primeira vez o arquipélago artificial conquistado ao mar, conhecido como The Palm, o primeiro dos enormes desenvolvimentos urbanos que a cidade conquistou ao Golfo Pérsico graças ao dinheiro do petróleo e aos engenheiros holandeses. Após o grande sucesso de vendas deste enorme complexo urbanístico, chegariam outros ainda maiores, cujo êxito, como no caso do The World, já completamente isolado de terra firme, está ainda pendente de confirmação.

Hospedo-me num dos muitos hotéis que se ergueram no último dique da palmeira e, portanto, o mais distante da cidade, que se adentra no mar pelo menos dois ou três quilómetros. Enquanto percorro a trama de madeira do passeio marítimo curvo, olho para a construção de um novo e imponente complexo chamado The Atlantis Royal e, depois, já no hotel, averiguo de que é um projeto dos muito solventes e ubíquos KPF, o que me leva a pensar que, apesar da monstruosa questão em termos ambientais, o edifício só pode despertar, acho, a inveja de todos que, como eu, já foram arquitetos alguma vez.

Trata-se de um edifício que também é curvo, adaptando-se ao perímetro acima mencionado, que se ergue sistematicamente com módulos que são travam numa espécie de fábrica de grande escala, deixando enormes vãos vazios na sua fachada e rematado com provocantes consolas.

Penso no meu trabalho como docente na universidade de Riad, modesta, discreta; relevante apenas para o pequeno grupo de estudantes ao qual o meu esforço e talento, ou a sua ausência, poderia afetar, e sinto uma certa inveja ao pensar nos arquitetos que trabalham nestes grandes projetos. Alguns colegas, obviamente, pensam que uma pequena obra ou uma remodelação também é arquitetura, que os pequenos detalhes de cada obra são importantes e, enfim, toda a milonga do artesão e do serviço à sociedade na qual eu, de alguma forma, também acredito.

Não obstante, se observamos os três grandes arquitetos do século passado, nenhum deles deixou escapar a oportunidade de construir à grande quando esta se apresentou à sua frente, não pouparam esforços, em diferente medida, para serem grandes propagandistas de si mesmos e, de facto, temos de admitir que não teriam passado à história da arquitetura como o que são se só tivessem construído, digamos, a sua obra mais conhecida e admirada, mas sim um conjunto extenso de edifícios com superfícies cada vez maiores.

Analogamente, os grandes arquitetos do século XXI (não é de minha intensão fazer uma lista nem procurar exceções e rarezas de alguns prémios Pritzker ou arquitetos que continuam a trabalhar de maneira artesanal como Zumthor ou Murcutt), refiro-me a Piano, Rogers, Foster, Koolhaas ou Hadid. Todos eles construíram muitíssimo e pouco renunciaram a fazê-lo por razões éticas ou por conflitos morais com determinados governos ou sistemas políticos, muitos vezes justificando-se com um simples “se não for eu a fazê-lo, fá-lo-á outro, e talvez o faça pior”.

Lembro-me daquele filme de Bigas Luna sobre um construtor em Benidorm, interpretado por Javier Bardem, e parece que a arquitetura, ou o ego, continuam a ser questões de metros quadrados, e que essa era a ambição – ou uma das ambições – dos arquitetos modernos, e continua a sê-lo entre os contemporâneos, mas creio que a maioria de nós tem vergonha de reconhecê-lo, porque seria reduzir a arquitetura a uma questão quantitativa sem muito interesse ou, como talvez dissesse Bigas Luna, a uma questão de huevos1.

 

Francisco Javier Casas Cobo é arquiteto e vive em Riad desde agosto de 2014. Costumava exercer arquitetura juntamente com Beatriz Villanueva Cajide num atelier de crise arquitetónica e especulação literária que continua a chamar-se bRijUNi arquitectos.


1 N. de T. Bigas Luna foi o realizador do filme Huevos de Oro (Ovos de Ouro). A expressão ‘questión de huevos’, em castelhano, significa ‘ter coragem para’, em calão. A tradução mais aproximada em português seria “ter tomates para”.
Texto traduzido por Inês Veiga

 

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