Arquitetura dos trezentos

Souto de Moura dizia numa entrevista:

«Gosto da naturalidade dos edifícios do Siza. Parecem gatos a dormir ao sol.»

 A verdade é que acabámos por conseguir que toda a Arquitetura pareça um gato. Mais precisamente o gato da fortuna, que se pode encontrar em qualquer “loja dos trezentos” (“loja do chinês”, caso sejas millennial).

Conseguem imaginar um doente a ligar ao médico para perguntar o preço do tratamento, antes sequer deste último ter feito o diagnóstico? Mas um arquiteto, sim!

Conseguem imaginar um doente a procurar no Google “médicos baratos” em vez de “médicos bons” porque o que importa é o preço da consulta, independentemente do que esteja incluído ou do eficiente que seja? Mas um arquiteto, sim!

Conseguem imaginar um doente a regatear com o médico o preço da consulta porque “outro médico cobra metade desse valor”? Mas a um arquiteto, sim!

Conseguem imaginar um doente a dizer ao médico que o preço da consulta é caro, mas que necessita um diagnóstico completo sem “um papelinho que diga o que tenho ou o que devo tomar”? Mas a um arquiteto, sim!

Conseguem imaginar um doente a dizer ao médico que comece o tratamento sem cobrar, e, conforme vá avançando, pagar-lhe-á a consulta ou não? Mas a um arquiteto, sim!

Conseguem imaginar um doente a dizer ao médico que mude o tratamento porque o seu cunhado/vizinho/amigo lê revistas de medicina e garante que é melhor receitar outros medicamentos em vez daqueles que lhe receitou? Mas a um arquiteto, sim!

A verdade é que o único que está doente, e gravemente doente, é o prestígio da Arquitetura. E o responsável pelo contágio é única e exclusivamente o arquiteto.

Os arquitetos que, levados pela corrente da maioria, atribuem um preço ao nosso trabalho por telefone, sem sequer saber em que consiste exatamente dito trabalho.

Os arquitetos que, arrastados pela maré social, arvoram orgulhosamente a bandeira e a etiqueta de serem mais baratos do que qualquer outro, porque ser o melhor é muito difícil, mas ser o mais barato só exige desvalorizar-se um pouco mais.

Os arquitetos que, empurrados pelo pensamento coletivo, assumem que o nosso trabalho “só” é uma pequena plantazinha ou dois desenhos que se fazem em quinze minutos, e esquecemos que em cada traço existem anos de formação e de trabalho (e, às vezes, talento).

Os arquitetos que, resignados, aceitamos trabalhar num anteprojeto sem saber se o cliente nos contratará, oferecendo trabalho e tempo grátis, mas, sobretudo, algo único, original e inédito: a nossa propriedade intelectual.

Os arquitetos que, por respeitar o lema ‘o cliente tem sempre razão’, aceitamos as boas opiniões dos clientes (e do seu meio) em vez de defendermos com o nosso critério académico as questões estéticas – e às vezes até técnicas – do projeto.

Se acedemos ao regatear da feirinha; se aceitamos os descontos temerários nos nossos honorários; se preferimos oferecer preço em vez de qualidade…

Resumindo, se tratamos o nosso trabalho como qualquer produto dos “trezentos”, não podemos esperar que o cliente o veja como algo melhor que qualquer um desses gatos amontoados nas prateleiras que se podem comprar em qualquer “loja dos trezentos”.

Ou, com alguma sorte e se sabe regatear, talvez até consiga mais barato…


Texto traduzido por Inês Veiga.
Autor:
Arquitecto formado en la U. Europea de Madrid y la New School of Architecture and Design de San Diego (California, USA). | MArch bajo la docencia de Álvaro Siza, E. Souto de Moura, Aires Mateus, Carlos Ferrater o Fran Silvestre (con quien ha colaborado) entre otros. | Actualmente desarrolla su Tesis Doctoral sobre la materialidad de la luz natural y su carácter cinético en la obra de Siza, lo cual compagina con el trabajo del estudio (www.raulgarcia-studio.com)

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