Siza, o mestre inclassificável

Que o mestre português representa uma referência ineludível da Arquitetura do século XX e do início do século XXI é algo que poucos se atrevem a questionar a esta altura da sua carreira.

Prémio Mies van der Rohe, Prémio Pritzker, Medalha de Ouro do RIBA… Álvaro Siza coleciona os maiores reconhecimentos aos que um arquiteto pode aspirar, graças a um estilo que lhe permitiu projetar ícones da arquitetura em todas as décadas, dos anos 50 até à atualidade.

Foi classificado como minimalista, essencialista, contextual, racionalista, pragmático… o que só demonstra que é impossível de classificar. Álvaro Siza é tão minimalista como o foi Mies van der Rohe e tão racionalista como Adolf Loos. É tão contextualista como Távora ou Alvar Aalto e tão pragmático como Wright ou Le Corbusier.

Porque ele é todos eles.

Álvaro Siza foi Távora nos anos 50 para sublimar a arquitetura tradicional portuguesa e dotá-la de uma áurea de modernidade permanente na sua Casa de Chá em Boa Nova, e pouco despois foi Aalto nos anos 60 para conseguir que a arquitetura fosse ele mesmo com o meio, gerando, com as suas Piscinas das Marés em Leça de Palmeira, uma paisagem construída de luz e limites difusos.

Quando Portugal se abriu ao mundo após a Revolução dos Cravos, Álvaro Siza foi Le Corbusier nos anos 70 para viajar e conhecer a História, para poder, assim, transformá-la com as suas habitações sociais de SAAL.

Álvaro Siza foi Adolf Loos no final dos anos 80 ao projetar a FAUP a partir do racionalismo mais essencialista e desprendido de artifícios.

Nos anos 90, Álvaro Siza volta a ser o Távora do contextualismo e o Aalto da tradição para projetar o Centro Galego de Arte Contemporânea (1993), para logo ser outra versão de Le Corbusier, uma versão mais purista e pragmática, que lhe permite projetar um espaço religioso tão carregado de simbolismo e luz como a Igreja de Santa Maria em Marco de Canavezes (1996), e acabar por ser um Mies van der Rohe, mais minimalista, com o seu Pavilhão de Portugal para a Expo de Lisboa (1998).

Na primeira década do séc. XXI, Álvaro Siza foi Frank Lloyd Wright para se transformar em orgânico no projeto da Fundación Ibere Camargo, cujos sincretismos formais lembram, sem dúvida, o Guggenheim de Nova Iorque.

Fundação Ibere Camargo, Álvaro Siza (c) Fernando Guerra

 

 

Museu Guggenheim Solomon R. de Frank Lloyd Wright

Como se não bastasse, pelo caminho Siza também foi, nalgum momento, Bruno Zevi pela sua arquitetura orgânica; foi José Antonio Coderch pela sua honestidade construtiva e pela sua defesa de conciliar tradição e progresso a partir da aprendizagem da arquitetura popular; foi Luis Barragán visto que, como William Curtis diz, “Siza deu provas mais que suficientes de que era, assim como o era Barragán, um dos poucos arquitetos modernos capaz de criar um lugar arquitetónico puro“.

E também foi Louis I. Kahn em todos os momentos de estudo, compreensão e capacidade de modelar a luz natural como um material construtivo manipulado ao serviço do espaço construído.

Álvaro Siza foi todos estes Mestres, e muitos outros, durante sete décadas até chegar a ser Álvaro Siza. E é precisamente por isso que nas próximas décadas deixará de ser todos eles para ser, “simplesmente”, Álvaro Siza.

Ou talvez seja mais simples e tenha sido “simplesmente” Álvaro Siza durante todo este tempo.

Autor:
Arquitecto formado en la U. Europea de Madrid y la New School of Architecture and Design de San Diego (California, USA). | MArch bajo la docencia de Álvaro Siza, E. Souto de Moura, Aires Mateus, Carlos Ferrater o Fran Silvestre (con quien ha colaborado) entre otros. | Actualmente desarrolla su Tesis Doctoral sobre la materialidad de la luz natural y su carácter cinético en la obra de Siza, lo cual compagina con el trabajo del estudio (www.raulgarcia-studio.com)

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