1

Sloterdijk, Peter (2005). En el mundo interior del capital. Para una teoría filosófica de la globalización. Ediciones Siruela, 2007.

2

Buyung-Chul Han. Psicopolítica. Neoliberalismo y nuevas técnicas de poder. Pensamiento Herder, 2014.

3

Álvarez Paula V. Introdução à investigação “Novos Modos de Intervenção no Espaço Público”. Dirección general de Arquitectura y Vivienda da Junta de Andaluzia, 2011 (mais informação em: http://alvarezpaula.com/es/nuevosmodos.html).

Eliminar o “user” do projeto

Management Sciences University, Bordeaux

Management Sciences University, Bordeaux. Anne Lacaton & Jean Philippe Vassal, architects.

Há pouco tempo Andrés Jaque afirmava que estamos num momento onde é realmente necessário renovar os nomes, as ferramentas e técnicas para descrever a realidade do dia-a-dia, para desta forma estar em condições para descrever e produzir as nossas práticas. Subscrevo-me totalmente a esta ideia. Hoje em dia as produções culturais e comunicativas chegam a adquirir o mesmo peso e consistência que a realidade, chegando até ao ponto de alterar a mesma: o descritivo pode chegar a ser normativo. Daí que faça sentido que não só a totalidade do meio habitado, mas também as suas representações e descrições, sejam objeto de curiosidade e projeto em arquitetura. Este é um tema que daria para muito; ficarei, por agora, com esta ideia: a importância das palavras que usamos em arquitetura. Na minha opinião, a renovação dos nomes que reclama Jaque poderia ser nutrida pela disseção de algumas palavras que, desgastadas pelo seu uso, deixaram de encarnar os seus conflitos inerentes. “Abertura”, “transparência”, “participação” e “utilizador” estariam no topo da minha lista. Vou abordar esta última.

A noção de utilizador, tão cara para as explorações participativas da arquitetura dos sessenta e setenta, mudou a sua conotação social e política para se converter em epítome de uma passividade dinâmica: a do consumidor que sacrifica a genuína possibilidade de decidir a favor da eleição sobre um menu de opções ou oferta diversificada. Seguindo Sloterdijk, o “user” contemporâneo não é um sujeito ativo, mas um download de demandas: um mero “downloader”.1 Essa passividade dinâmica – na qual os agregados de informações acumuladas substituem o saber pessoalmente integrado e narrativamente ordenado – é o terreno fértil do que Byung-Chul Han define como psicopolítica: o condicionamento pré-reflexivo das nossas formas de vida através da exploração de uma liberdade apenas ilusória.2 Concentrando-se na arquitetura, isto sugere que envolver-se em qualquer forma de produção de habitat, e não com acerto, mas simplesmente com liberdade, requer um processo reflexivo, construtivo e formativo, cujo desaparecimento é – muito mais do que a ativação de papéis passivos – um assunto crítico com o qual a prática arquitetónica tem que lidar.

A utilização de outros termos (agente, ator, intérprete, tradutor) para designar os destinatários/cúmplices do nosso trabalho e entender de maneira idêntica a nossa labor tem sido uma maneira importante de denunciar a “comodificação” da distribuição habitual da atividade arquitetónica – ideia, representação, execução e utilização –, uma distribuição hermética em cujo contexto nos acostumamos a pensar sobre os métodos de configuração ou projeto. Mas, uma vez liberados do “utilizador” e do espartilho do serviço profissional, talvez possamos explorar novas formas de questionar o que é normativo. Experimentemos deixar em branco o “vazio” deixado após a eliminação do termo utilizador: seguidamente surgirá a pergunta pelo destino e sentido das atividades e produções arquitetónicas num contexto mais amplo e a longo prazo. Uma arquitetura livre de usuários desviaria o seu foco para os processos “construtivos”, “formativos”, “reflexivos” e, ao mesmo tempo, “especulativos”, dilatados e decantados ao longo do tempo, para reivindicar o grande potencial que têm para invocar dimensões radicais de discussão e trabalho, além da experiência imediata do “nós” diretamente implicado. Na minha opinião, estes processos oferecem um nó idóneo desde o qual entender, descrever e reformular os orçamentos que condicionam as nossas práticas. Passando do abstrato ao concreto, um dos exemplos recentes mais deslumbrante deste tipo de processos é oferecido pela Faculdade de Ciências da gestão da Universidade de Bordéus, da autoria de Lacaton y Vassal. Um grupo de habitantes da zona começou a fabricar (e a vender) uma compota com as rosas com as quais os arquitetos “fabricaram” a materialidade e a atmosfera do edifício, que, por sua vez, evoca os pequenos jardins com roseiras características das casas circundantes.3

Notas de página
1

Sloterdijk, Peter (2005). En el mundo interior del capital. Para una teoría filosófica de la globalización. Ediciones Siruela, 2007.

2

Buyung-Chul Han. Psicopolítica. Neoliberalismo y nuevas técnicas de poder. Pensamiento Herder, 2014.

3

Álvarez Paula V. Introdução à investigação “Novos Modos de Intervenção no Espaço Público”. Dirección general de Arquitectura y Vivienda da Junta de Andaluzia, 2011 (mais informação em: http://alvarezpaula.com/es/nuevosmodos.html).

Autor:
Paula V. Álvarez es una arquitecta con sede en Sevilla, fundadora de la práctica editorial Vibok Works . Su trabajo reúne investigación, edición, diseño y escritura desde una perspectiva experimental y crítica. Su principal interés de investigación es cómo el encuentro del enfoque académico de los Estudios Culturales y de la Ecología de los Medios con la experimentación arquitectónica desde inicios del s. XX hasta nuestros días puede habilitar una comprensión más profunda de la renovación de las técnicas de arquitectura en el seno de la globalización electrónica y la cultura tecnográfica.

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