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Entrevista a Pedro Cadanho em http://www.domusweb.it/en/interviews/2012/05/14/pedro-gadanho-curating-is-the-new-criticism.html

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Ver o texto de Santiago de Molina: http://www.laciudadviva.org/blogs/?p=24122

Comissariado e delito ou a critica como Narciso

12 viviendas en Jaén de bRijUNi architects

12 habitações em Jaén de bRijUNi Architects. © Jesús Granada

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Foi dito – e aplaudido por aqueles que se dedicam a tal – que o comissariado é a nova critica (curating is the new criticism)1. Não podíamos estar mais em desacordo. São duas atividades totalmente diferentes. A crítica, na sua versão real e credível, sem manipulação e sem temor, pode ser negativa ou positiva, sempre e quando não se abrace o absurdo critério de bambificá-la2  para regalar os ouvidos da audiência com bonitas palavras sobre algo ou alguém, mas sim demonstrar um claro compromisso com a sociedade, dependente unicamente do critério do próprio crítico, e só do mesmo. O comissário, pelo seu lado, não goza de tanta liberdade. Embora, em princípio, o seu trabalho pudesse ser entendido como algo muito mais agradável, focado simplesmente em selecionar o interessante sem ter que lidar com a parte desagradável da crítica negativa, não devemos esquecer que o comissário se deve muito mais ao seu público e à instituição que o contrata, pelo que deve ter em conta muitos mais interesses, tanto na curadoria de exposições, debates, eventos de qualquer tipo como de preparar um texto ou uma publicação sobre os mesmos.

Ainda que a critica nas revistas de arquitetura, como já foi dito tantas vezes, há muito tempo que abandonou qualquer indício de posicionar-se criticamente (além dessa mera seleção só do que é bom, debilmente justificada com a necessidade de não perder tempo com o que é errado ou insubstancial) queremos referir aqui o facto de que nem a crítica do cinema nem a da literatura optaram por caminhos tão pouco comprometidos. Assim, quando, como no caso da literatura, o número de livros publicados excede a capacidade de descrição critica num espaço de um jornal – isto foi-me contado por um amigo que trabalha na secção de cultura de um desses jornais nacionais -, a seleção tem que incluir as melhores obras dos novatos e todas – já sejam melhores ou piores – as dos consagrados, que é o que qualquer leitor espera em relação aos autores que já gozam de prestígio. No âmbito cinematográfico, ao ser uma produção mais limitada, tudo é suscetível de ser comentado, como mínimo em poucas linhas, e sofrer ou ser abençoado pelo crítico de turno.

Desgraçadamente, não acontece o mesmo na arquitetura, onde as críticas, em muitos casos, são simplesmente inexistentes e, noutros, são levadas como algo pessoal. Portanto, neste contexto, o trabalho do comissário ganha muita importância, visto que apenas deve estar atento a selecionar e a celebrar o melhor do melhor.

É, nesse caso, impossível que o comissário se engane e receba críticas pelo seu trabalho da mesma maneira que o crítico recebe quando expressa publicamente uma opinião negativa? Logicamente que sim, porque o trabalho de seleção e edição, como referido antes, é também uma crítica ou triagem que deixa de fora ou de lado tudo aquilo que, mesmo que seja interessante, o pareça menos do que o que foi selecionado. Assim, o comissário também está sob julgamento e não só receberá o aplauso daqueles que selecionou, também pode ser criticado pelo critério e pelo resultado da seleção ou processo.

Às vezes acontece que os curadores sofrem do que chamamos de efeito Narciso e que é, basicamente, a tendência natural de quem deve julgar ou valorizar o trabalho de outros e que só se interessa pelo que lhe é mais próximo e conhecido, e, portanto, ver a beleza do trabalho em si refletido noutros semelhantes ou noutras pessoas que, por amizade ou admiração, de alguma maneira, formam parte do nosso ambiente mais ou menos imediato.

O efeito Narciso aparece até – e sem que nos apercebamos – em júris e prémios, na crítica e no comissariado, indistintamente. Evitar o contágio é difícil, mas não é impossível. Talvez ajude entender que o conceito de strong misreading também se pode aplicar ao contrário, ou seja, que os júris e os comissários façam leituras erróneas do seu próprio trabalho, em direções e lugares distintos aos da sua própria prática e superando, assim, os inevitáveis primeiros amores referenciados por Harold Bloom nos weak poets em relação aos referentes e percursores poetas jovens que emulam de forma inevitável, antes de encontrar a sua própria voz e converter-se em strong poets. Se não for assim, o que acontecerá será que os galardoados, de uma forma ou de outra, parecer-se-ão demasiado aos que selecionam ou aos que julgam, assim como Narciso e o seu reflexo no lago.


Texto traduzido por Inês Veiga.
Notas de página
1

Entrevista a Pedro Cadanho em http://www.domusweb.it/en/interviews/2012/05/14/pedro-gadanho-curating-is-the-new-criticism.html

2

Ver o texto de Santiago de Molina: http://www.laciudadviva.org/blogs/?p=24122

Autor:
Beatriz Villanueva es Doctora en Proyectos Arquitectónicos Avanzados, MArch y MPAA (ETSAM). Francisco J. Casas es Doctor en Comunicación Arquitectónica, MArch y Master en Análisis, Teoría e Historia de la Arquitectura (ETSAM). Fueron comisarios de “Menáge a Trois”, “F. A. Q.”, “Portfolio Speed Dating”, “Al Borde de la Crítica” y de la exposición "Couples & Co.: 22 Mirror Stories of Spanish Architecture" en Berlín, Hamburgo, Sevilla y Granada.  Han sido profesores en IED, UEM, UCJC, ETSA Zaragoza, Summer School AA (Londres) y ahora en Riad desde 2014.

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