Enquadrar o corpo, educar o olhar – O problema do analfabetismo do espaço.

Complexo ‘Les Temples du Lac’, Ricardo Bofill, Paris Fotografia da autoria de Raquel Lagoa, Outubro de 2018

 

No domínio da arquitetura, a um conjunto de convicções estão sempre associadas um conjunto de incertezas, não fosse a arquitetura uma representação subjectiva integrada num universo real mas incerto. No entanto, a questão do compromisso social e educacional, é uma convicção que dificilmente se irá dissociar da prática da construção de espaço. Estou convicta que é algo que nasceu com a arquitetura, que perdura no presente e irá acompanhá-la no futuro.

O compromisso social deve estar de acordo com um compromisso individual do arquiteto. A intenção que o mesmo traduz no desenho dos espaços revela uma percepção do mundo que é a transposição de um ‘eu’ corpo e intelecto em um ‘eu’ espaço e tempo.

Do compromisso social advém o compromisso individual do espectador enquanto habitante. Mais do que a experiência física, viver um espaço implica uma reflexão matemática e poética do ambiente que o envolve, sentir as proporções, dimensões, alinhamentos, atmosferas, cheiros, cores e texturas, como limites da vivência e da própria arquitetura.

 

Perante esta reflexão, é oportuno referir a noção de arquitetura não contextual, que emerge dela própria e considera a experiência do espaço como a sua base.  Se a experiência é a base, o corpo (humano) é o acontecimento à procura de se identificar com o corpo da arquitetura (obra), que altera sempre algo na experiência pessoal, no seu percurso de vida e na sua forma de pensar e de estar.

 

A arquitetura como disciplina multiuso atua principalmente para a vida, e o arquiteto deve atuar como um ‘deus’ do espaço, criador de pretextos para a reflexão e discussão da realidade.  Por outro lado, o espectador é um discípulo do arquiteto, deve compreender e interpretar a sua visão traduzida em espaço, posicionar-se perante a realidade onde a memória e experiência pessoal coincidem com o imaginário do criador.

 

O raciocínio anterior coloca a questão da inversão de papéis Arquiteto/Habitante: o arquiteto experimenta inevitavelmente a função de habitante, já a situação inversa não se torna tão evidente. Raramente o habitante consegue identificar-se de imediato com o intelecto do criador do espaço, de reproduzir os seus passos e os seus olhos e criar instantaneamente uma posição crítica face ao que o rodeia.                 Deste modo, a questão da incompreensão torna-se num problema que, a meu ver, estará na origem de tantos outros. Não se pode exigir mais da arquitetura, sem antes reivindicar a sua compreensão. Não se exige uma compreensão literal, total ou verdadeira, mas sim, uma intenção, um gosto, uma posição cada vez mais distante da indiferença e do desprezo. Pede-se qualquer coisa: um olhar demorado sobre uma parede de betão, uma atenção ao percurso da luz que atravessa a janela estreita ou a descoberta de um pormenor interessante de transição entre diferentes materiais.

 

Atualmente, a carência de espaços vazios, poderá ser igualmente uma das razões para a dificuldade na reflexão, discussão e interpretação do espaço. A  falta de clareza espacial associada ao excesso de informação limita a compreensão do mesmo. O dia-a-dia caótico na cidade oprime o essencial da arquitetura e impossibilita a leitura dos definidores de espaço (luz, sombra, cor). Neste âmbito desresponsabilizamos quer o artista quer o espectador, e culpamos a excentricidade urbana.

Este diagrama surge como uma síntese desenhada do pensamento que proporcionou a origem desta reflexão crítica. Permite clarificar e descrever os limites que coexistem neste universo da compreensão e incompreensão e ensaiar a uma hipotética inversão de papéis.

O arquiteto é criador (1.) e observador do espaço em simultâneo, desenha um percurso e percorre-o, cria as sensações que experiencia e memórias que irá recordar mais tarde. O habitante vive numa atmosfera de ingenuidade e ignorância (4.2.), a menos que se esforce para transpor esse limite e entrar no domínio do observador erudito (4.1.), que tenta compreender o espaço, colocando-se na atmosfera dos artistas, designers, pintores, escritores e poetas (3.).

 

A quem se atribui a responsabilidade da transposição desse limite? Ao criador/arquiteto? Ao observador/habitante? A ambos? Como se minimiza o analfabetismo do espaço?

 

Mais do que a convocação do problema da incompreensão da arquitetura que metaforicamente chamei de ‘analfabetismo do espaço’, este ensaio é um alerta para o que se poderá verificar num futuro próximo: a perda da importância do espaço psicológico e espiritual, e a valorização do físico e ilusório. O espaço é alvo de uma ‘injecção’ de futilidades que ofuscam e escondem o que sempre esteve lá e jamais se irá dissociar da identidade arquitetónica- a essência do espaço.

 

Uma possível solução poderá ser a difusão da cultura arquitectónica através de livros, fotografias, conferências, conversas, mesas redondas- instrumentos que estão facilmente ao alcance público em geral. O habitante poderá aprender assim a ler uma planta como lê um texto, a sentir o espaço como sente um romance, ou a decifrar um gesto do arquiteto como decifra um poema.

 

Se a arquitetura fosse literatura era mais bem sucedida.

Só não compreende (a arquitetura) quem não quer, não vê, não sente, não vive…

Autor:
(Figueira da Foz, 1996) Estudante na Faculdade de Arquitetura do Porto (desde 2014), com um percurso escolar dividido entre a arte, ciência e literatura, a arquitetura surge como a síntese dos três mundos. A palavra manifesta-se enquanto processo criativo, tal como o desenho em Álvaro Siza.

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