a fábrica pós-moderna da frente de água

A frente de água é sem dúvida dos lugares de maior destaque da cidade, é aqui que a malha construída do perímetro urbano se dissolve no horizonte azul. E é também aqui, nestes terrains vagues da cidade pós-industrial, que o Homem dá mais uso á imaginação e ferramentas de que dispõe. Os arquitetos e planeadores urbanos avançam então sem pudor para a cidade do século XXI.

A revitalização de frentes de água na cidade pós-industrial, lugares entretanto vazios, perdidos e esquecidos na transição para a cidade global ocorrem hoje um pouco por todo o mundo, mudando a perceção que tínhamos do porto de outrora. Lugares inóspitos e sujos, fruto de uma intensa atividade portuária e industrial, são agora montras para o mundo do que a sociedade moderna de melhor tem para oferecer. Promenades, espaços públicos de qualidade e arquitetura de excelência, geralmente com uma ou mais obras de stararchitects são a regra. 

Mais do que uma parte da cidade, a frente de água é o pináculo da cidade pós-moderna, a imagem postal para o turista, a linha mais a frente nos olhos do mundo e, como tal, governadores e planeadores fazem aqui uma mostra da cidade sustentável, de usos mistos, equilibrada, limpa, excitante e segura, tudo valores com os quais a sociedade contemporânea se identifica. Estes são os atributos que governantes e investidores procuram para carimbar a cidade com um selo de qualidade como se de um produto se tratasse e colocá-la no mercado. Podemos observar nestes lugares obras de Foster ou Koolhaas (OMA), como nas Londres Docklands ou no Kop van Zuid de Roterdão; Herzog & Meuron e a espetacular Elbphilarmonie de Hamburgo; o Guggenheim de Bilbao de Frank Gehry, entre outros. O planeamento urbano é exímio e tudo parece ordenado e no sítio. Não existem falhas e desencontros aparentes como acontecem noutras zonas da cidade amadurecidas pela história.

No entanto, estas áreas que parecem ter tudo para ser uma fórmula de sucesso, por vezes não têm a adesão esperada por parte de todos que parecem preferir o conforto ou nostalgia de zonas com passado histórico. Existem em certos casos, muitas opiniões críticas que as classificam como elitistas, genéricas ou cidades fantasma cinzentas. Estará a arquitetura pós-moderna a afastar as pessoas com a sua frieza formal ou estarão estas áreas ainda em fase de prova e aceitação?

Frente de água de Bilbao, antes e depois do projeto de reconversão
 (Abandoibarra © Courtesia de Ibon Areso)
Autor:
Paulo Miguel Marques
(Coimbra, 1991) Arquiteto recém-graduado pela Universidade de Coimbra, estando um ano de Erasmus na HCU em Hamburgo, cidade onde também realizei um estágio pelo mesmo programa. Considero a viagem das coisas mais importantes na formação do arquiteto e interesso-me particularmente pelo urbanismo e modo de habitar a cidade.
  • Joana Costa - 6 agosto, 2018, 18:12

    Great article! Well done.

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